O melhor de mim

Eu não sei quando o melhor de nós passou a existir nesse mundo. Passei dias e dias pensando sobre isso e planejando um texto-ombro-amigo para descarregar tudo que me bagunçava a mente. Pensei em começar falando sobre como não demos certo, mas não queria falar de desamor porque não sinto nenhum lamento. E, para mim, esse papo de não dar certo também não existe, as pessoas ficam juntas o tempo que tem de ficar. Dá certo por um mês, três anos ou cinco décadas. Eu não sei por quanto tempo existimos como um só nesse mundo porque contar os dias sempre me foi uma tarefa difícil, mas sei o quanto fomos bons amantes, a companhia mais engraçada um para o outro e o porto-seguro que entende tudo num olhar. Isso me valeu. Isso me ajudou ser quem eu sou. Eu queria ter entendido tudo isso antes, mas sei que só foi possível entender agora porque é o jeito como sou agora. A gente teria sido tão maior se tivéssemos vivido juntos a melhor versão de nós. Divagações que eu nem me deveria dar trela para elas aqui na minha cabeça, mas eu tive vontade de ouvir aquele álbum da Cassia Eller e lembrei de você. Sem querer. Eu sei que são suposições quase constrangedoras e que eu também já abusei dos “mas”, eu só queria mesmo poder te ver mais de perto. Todo jogo me cansa e eu só queria as relações mais simples e menos engessadas. Que mal há se nos falamos pela última vez em 2006 ou 2007? Eu não quero ser escroto, não quero bagunçar nada. Que mal há? Esse gelo existe ou a gente finge que ele tá ali quando nos vemos no mercado ou no banco e nossos olhos se encontram na exata hora e tão logo desviamos o olhar para performar estranheza? Eu queria saber de você hoje. O que você tem ouvido? Sua angústia tá virando que outras coisas aí no seu cotidiano? Sei lá o que ficou pra trás de mim, de você e de nós, eu só queria é saber se você se sente hoje na melhor versão de você. Meu número ainda é o mesmo. O meu e-mail avisa quando chega o seu aniversário. Eu até finjo para mim mesmo que não sei mexer naquelas configurações e adio pro ano seguinte o esquecimento. Ele não vem.

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Neofilia

Eu me afogo em absurdos. Estar absurdado é o meu estado de graça porque são os absurdos que me alimentam. Cada absurdo é um novo mundo de perspectivas e descobertas. E pouco a pouco vou sabendo o quanto não sei, a ignorância me revolve e me absurda ainda mais. A cada novo espanto eu ganho mais vida, eu gosto mais da vida, eu passo a querer intensamente a vida e gasto a vida. No absurdo eu encontro a dúvida, que hoje já me é mais cara que a certeza. Amadurecer é se livrar de pretensões e é na liberdade onde me encontro muito mais.

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Pássaros feridos

Meu coração é ninho de pássaros feridos. Meu colo acalanta quem chega e em troca não tem coragem de pedir permanências. Nunca foi meu querer essa efemeridade do amor, mas se até a rocha se molda com a força das águas e do vento, que dirá o nosso amar.

Quando despertamos nossas potencialidades românticas naquele afã pulsante de querer viver uma vida inteira em alguns segundos, não nos damos conta que o coração é cousa frouxa. Até que apanha. Aí sim começa a tomar forma, ora parece pequeninho de tão apertado, ora parece imenso de tanto amor, maior ainda quando se transborda em lágrimas – de felicidade ou de tristeza, de raiva ou alegria.

Eu cresci mais do lado escuro do amor. Término, despedida, desencontro, desamor. Traição, diferença, desinteresse, decepção. Esquivei-me dos espinhos para não me transformar no amargo que rejeito e faço máxima questão de rejeitar, resguardando o que há de macio para quem ainda há de vir.

Vieram. Carinho, cafuné, candura, cosquinha. Mas também rebuliço, redenção, redemoinho, reminiscências. Eu sempre quis tudo por inteiro, não calava parte nenhuma, preferia o posto, revirava, revivia, reiterava e reconstruía. Até chegar o dia do tchau, até mais, até breve. Uma vez – me lembro agora – foi só silêncio, pior que dizer adeus. Por tantas vezes eu me acovardei e, em vez de ponto final, preferia as reticências. Noutras eu me adiantei e poupei qualquer drama, saí primeiro como que se tivesse desprendimento.

Independente da circunstância, eu nunca lutei pelo amor. Porque só entendo o amor se for livre. Fluido, dinâmico, natural, arrebatador. Sei que não se mede o amor em tempo, mas se eu pudesse ter um pedido, apenas um, pediria que ficasse um pouquinho mais.

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Beijo

Eu lembro como se tivesse sido ontem à noite. Eu te querendo toda e sem saber como agir, escolhendo a canastrice como saída pra minha inabilidade com essas coisas do interesse romântico. Cantei uma música ao pé do seu ouvido, meu braço em volta do seu pescoço não te deixava muitas alternativas. Foi aí que seu sorriso se abriu perto do meu. Bem perto do meu, quase que não pude ver, mas sentia as maçãs do seu rosto se suspendendo perto das maças do meu rosto que também se contraíam e os seus dentes bem perto dos meus – mergulhei no teu beijo.

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Que nome tem?

Apagava os seus rastros por onde passava, como quem pudesse começar uma nova vida a qualquer momento. Ela não tinha apegos e fazia questão de não ter história. Falava muito sobre tudo, falava bem, possuía argumentos bonitos como se não tivesse vivido as mais terríveis decepções. Não falava de si. Ou se falava, era muito pouco, sempre de maneira dispersa e evasiva, mas igualmente convincente. Um dia a encontrei onde eu não esperava e quis lhe dar um abraço, sorrir e dizer coisas bonitas, mas não pude. Ela não me reconheceu, não quis me reconhecer, não me esperava ali enxergando-a cheia dos seus adornos ou alguma coisa assim. Talvez tudo isso junto. Ela não me reconheceu. Eu entendi. O contexto e a história entre mim e ela era outro e eu não fazia parte daquela história que ela vivia ali. Eu a entendi e sorri mesmo assim, meio que de longe, da maneira mais discreta possível. Ninguém entendeu eu tentar intimidade com aquela que me esnobou, mas eu entendi. Eu rememorei e desejei profundamente reviver o fascínio de antes. Tolice minha, eu sei. Depois do dia fatídico eu nunca mais a vi, e se vi foi como se não tivesse visto, respeitei sua decisão. Sou ouvido de muitas histórias, mas essa me foi contada sem uma palavra sequer, o olhar evasivo me disse tudo naquele dia. Só quem nos vira perdidos e sem destino certo naquela noite sabe do amor inato que descobrimos ali. Uma felicidade dilacerante nos atingia como quando crianças descobrindo o primeiro gozo. Com ela tudo me pareceu ser estreia. Que nome tem?

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Coisa mais bonita

Quero mais de três mil dias pra ficar em silêncio deitado ao seu lado apenas concentrado na sua presença. Desejo tão fortemente sua presença aqui comigo que é quase palpável a lembrança da tua pele morena, lisa e quente. Tem coisa mais bonita a dedicação de mapear cada centímetro do corpo de alguém? Sei tuas pintas, sei teus poros, sei teus pelos – mapeei os caminhos do teu prazer. Gosto de gostar de você e se te escrevo é mesmo na intenção de deixar tudo assim escancarado. Os dias estão estranhos, densos e coisas e tal. Penso que, mais que nunca, é agora a hora da gente fazer exatamente aquilo que nos faz bem, cuidar de quem a gente gosta e também de nós mesmos. Dizer que gosta, que ama, que sente falta, que a saudade está presente e tudo mais. A estação do desprendimento já passou. Vamos nos prender sim, mas só a quem e ao que nos faz bem. Você me faz bem. Eu ainda engatinho nesse lance de ser tão claro e escancarado, então falar de casamento é coisa lá pra frente, mas confesso que já pensei na nossa casa perto de algum mar pacato e com rede na varanda, uma vitrola na sala e nossos discos decorando a parede, uns tantos em cima dos móveis e outro rodando na bandeja Mariana Aydar. Nós dois juntinhos inventando nosso mundo, criando memórias e ancorando sem medo toda a vida na nossa relação. Você quer? Você aceita?

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28

Estive longe. Longe por querer e também por necessidade. Longe do meu eu mais denso, do mundo confuso que por tanto tempo cultivei e hoje se mantém por teimosia em estado de latência em mim. Mas quando a vida parece por demais outra vida que não a minha idealizada, quando todos parecem lobotomizados pagadores de conta, não tenho outra opção e me volto a mim. Flerto com a loucura, encho a cara, planejo fugas reais, penso, penso e penso. Noites inteiras de ideias e planos, poucas horas de sono, olheiras marcando o rosto e um estrangeirismo nítido no sorriso cordial e automático de bom dia aos colegas de trabalho, que em dias como os de agora parecem todos insuportáveis. Gente de mentira vivendo vidas de mentira e cumprindo punições por violarem regras de mentira. Casamentos infelizes compensados com descontrole financeiro, vejo todo dia. Uma tá buscando por todo o tempo alguma forma de autopunição por quebrar as regras que o mundo a impõe. Está todo dia triste comendo aveia pra tentar caber num 38. Parece seguir o Evangelho da Granola, quer converter todos ao seu redor. Porre. Ficou chata. A outra passa o dia fazendo marketing pessoal e do casamento no Facebook. Faz tudo parecer perfeito, tira foto do macarrão que fez na janta, “100 dias felizes”, declarações de amor copiadas de algum site de mensagens mal feito com layout de 2004. Chata. Um dia ficou bêbada no happy hour e soltou que o marido não transa mais com ela. Para que então tanta declaração? Eu não sei me encaixar e nem fingir que acho tudo isso legal. Penso, penso, penso. Planejo fugas reais. Ouço Belchior e Sérgio Sampaio. Encontro respostas e esperanças. Dois loucos. Meus gurus nesses tempos tão hostis. Ainda tem todo o emaranhado político lá de Brasília, da capital e daqui. Querem minha opinião, estou farto e queria estar por fora. Que maravilha deve ser exercitar a indiferença. Conheci uma menina. A gente se admira e ela é bonita. Também leu Caio Fernando Abreu. Sorrimos quando sem perceber eu lancei uma referência e ela entendeu. Fora isso, vivemos n’outra sintonia. Ela está virando gente grande, o salário multiplicou nos últimos anos e agora ela quer ser fina. Jantar em restaurante caro, roupa de grife, viagem internacional, tudo importado. Eu quero ser bagaceiro. Viajar pra Manaus, tomar cerveja nacional, bater perna pesquisando preço e ir pra feira comer pastel. Descobri que amo ir pra feira. Pechinchar o preço da batata-salsa, pedir um pedaço do queijo pra ver se levo ou não, 4 caixas de morangos por 10 reais: felicidade! Fiz 28 e nada mudou do dia pra noite, mas Saturno tá retornando. Passei o ano procrastinando meus estudos de tarô, mas li tudo que encontrei de Manuel Bandeira. Não comentei com ninguém, não houve com quem. Revi meus amores. Dei outros fins a eles. Dormi menos de 4 horas e o relógio já despertou me mandando ir trabalhar. Sento na cama, esfrego os olhos, faço o em-nome-do-pai e peço em oração: “fora Temer, volta Blchior!”

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