Oração pelo aprazível

Adquiri o hábito de rezar há alguns anos. Minha mãe, religiosa que é, sempre insistiu que eu rezasse. Eu até obedecia, às vezes. A minha obediência nunca foi constante. Rezava de vez em quando um Pai Nosso, que é a oração automática que vem na cabeça de todo mundo. Pai Nosso que estais no céu, bendito seja, digo, santificado seja… e me perdia. Tentava retomar já com remorso por ter deixado o pensamento voar, até chegar a hora do amém e terminar aquela tarefa que, na maioria das vezes, eu fazia sem a certeza do que dizia. Só consegui resolver meu problema de falta de atenção com a oração quando eu desenvolvi o meu próprio caminho espiritual.

Uma das primeiras coisas que a gente aprende quando chega num terreiro, talvez a principal delas, é bater cabeça para os orixás. Isto é, reverenciá-los e render-se a eles, num rito onde levamos a cabeça ao chão, tanto como sinal de respeito e submissão quanto por ligação com a energia telúrica. E no ato de bater cabeça, no que se pensa? O que se reza? Essa é a dúvida de todos. E então eu aprendi que ali batendo cabeça é o momento da nossa oração pessoal. Não aquele automático Pai Nosso e Ave Maria, mas sim a oração que vem de dentro, é o nosso abrir-se com o orixá, nosso momento de ligação com a nossa essência e a nossa ancestralidade. A prática da oração não se restringiu ao terreiro, em casa também eu passei a rezar. Faça chuva ou faça sol, nos dias bons e nos dias ruins, indo dormir às 11 da noite ou às 6 da manhã, eu passei a rezar.

Na oração livre, sem engessamento, flui o verbo. Agradecimentos, pedidos de proteção a mim e aos meus e desejos. No momento de oração é onde passei a dar forma, racionalizar e externar os meus desejos. E os desejos são muitos, com todo mundo é assim, acredito eu. Então desde o princípio eu tive o cuidado de equilibrar desejo com agradecimento, pra não sobrecarregar os santos. Desculpe qualquer decepção pela lógica infantil, mas é isso. Nessa de desejar e colocar esses desejos em movimento, encarregando o mundo espiritual de mover as energias necessárias para a realização do mesmo, a gente pede de tudo. O concreto e o não concreto, o real e o abstrato, desejos a curto, médio e a longo prazo, todos eles presente nas orações diárias antes de dormir e, dependendo da urgência, também ao acordar.

Além de rezar, também aprendi no terreiro que é preciso ter cuidado com o que a gente deseja. Não por uma questão de ficar se policiando e cerceando suas vontades, mas sim porque, hora ou outra, o desejo se realiza e a realidade das coisas é sempre maior do que supõe nossa razão. Digo isso porque em infinitas vezes me vi um tanto quanto perdido diante de um desejo realizado. Será mesmo que foi isso que pedi? Será mesmo isso? E sempre é, analisando friamente, nunca tive um desejo frustrado, muitas das vezes o que falta é a amplitude necessária para enxergar as coisas como elas realmente são. Somos pequenos. Pequenos e limitados.

Nas minhas conversas íntimas com minha mãe, a Rainha do Mar, pedi repetidas vezes que suas ondas levassem para longe de mim tudo aquilo que não me servia, tudo que maculava o meu corpo físico e espiritual, enfim, tudo o que me fizesse mal. E assim me atendeu Iemanjá. Na minha pequeneza, na minha memória curta, por vezes questionei minhas perdas. Vi indo embora coisas, pessoas, sentimentos, sensações e me indagava o que estava acontecendo. Eita ano difícil! Mas numa fagulha de luz, uma epifania me clareou: eu não perdi nada, eu recebi livramentos. Agradeço sinceramente por esse 2015 que mesmo denso e complicado, foi essencial para apurar minha essência e chegar mais perto do que realmente me apraz.

E que 2016 chegue com frescor e brandura, leveza e claridades. Epa babá! Odoyá!

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Subtrações

Eu já perdi pessoas de todas as formas possíveis. Ou pelo menos pensei que sim, mas a vida sempre se encarrega de nos mostrar que pouco ou nada sabemos dela. Perdi de novo, mas agora foi diferente. Perda sem despedida, sem dor e pasmem: perda sem distância. Está perto, mas não sei como está. Está perto, mas não sei mais como pensa, não entendo o que fala e não acompanho mais seus passos. É um jeito estranho de perder, mais incômodo que dolorido, e por ser tão incômodo, vezenquando faz crescer uma amargura no pensamento e aperta o peito.

Tudo bem que tudo muda, incluem-se aí as pessoas, mas qual é a linha que separa a mudança da descaracterização? Ela é tênue e nos exige coragem, só enxerga essa linha quem se dispõe a ver com crueza e justiça os seus afetos. É caro não deixar que a proximidade nos cegue. Eu escolhi enxergar. E a partir daí eu deixei de achar interessante o que via, deixei de admirar suas formas, seus sons e seus tons. Fui estranhando tudo. Desconhecendo cada dia mais até que, por fim, admiti: eu perdi.

Estamos nós agora separados por anos-luz de distância e talvez algumas interpretações tortas e mal-entendidos também. Eu sinalizei tantas vezes que as coisas estavam tomando um rumo obscuro e mesmo assim o risco foi assumido. Vislumbre mata amizade, obstinação ceifa autenticidade. E agora seus muros não permitem nem uma conversa íntima. E agora seus muros te afasta não só de gente, mas também do seu Eu mais reluzente. Cobranças não cabem aqui, tampouco quero dizer-lhe como pode ou deve agir, mas a saudade a gente não racionaliza, essa a gente não engana e, poxa, meu peito está cheio de saudade!

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Besteira qualquer

Maior besteira que fiz foi refazer os planos. Desistir dos meus planos e destinos para essa noite. Algo me prendeu, o ar ficou pesado, o vinho não bateu legal, sei lá, mas houve alguma coisa estranha sim. Deixei para trás qualquer atividade profícua ou divertida, abri espaço pras coisinhas miúdas. Quando dei por mim estava vendo o perfil do seu novo namorado e fazendo as piores comparações possíveis. Depois fui criticando cada detalhe, principalmente o português ruim. Como você consegue? Não entendo, vou deixando crescer meus piores lados, até sinto raiva. Tenho vontade de contar pra ele que seu hálito tem gosto de Hollywood vermelho. Mas ele já sabe, claro! O que dá na gente que de repente vem essa vontade de ferir? Rememoro seus segredos como se fosse capaz de usá-los contra você, mas gosto de pensar em maneiras de te atingir, como uma vingança para a minha solidão de agora. Mesquinharia total — eu sei. Penso nos teus defeitos como forma de me livrar de qualquer remorso. Quando resolvi te deixar eu sabia dessas noites viradas. Quando resolvi te deixar eu sabia que viria a falta, o corpo pedindo sexo,  os calafrios ao lembrar dos seus lábios molhando o meu pescoço. Mas está tudo bem,  eu sei bem porque estou aqui nesse momento. Eu não queria o peso que tinha a me oferecer. Não quero mexer no vespeiro cheio obscuro que há em você. Escrevo para me descarregar, porque nunca tive a coragem de dizer tudo isso a você. Nunca quis ser cruel, a idade me trouxe complacência. Então é isso. Tenho saudades, mas também tenho motivos. A má fama, pode espalhar, dizer pelos quatro cantos e ao vento que fiz isso e aquilo, que te abortei a nossa história e coisa assim. Meu nome não carrega nobreza. Aquilo que não edifica ninguém eu aprendi a guardar para mim.

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Vivo

Baby, I’m alive, vivo muito vivo feel the sound of music banging in my belly. Know that one day I must die. I’m alive!”

Eu te vejo daqui com a sensação pretensiosa que eu, de longe, te enxergo melhor que aqueles que te rondam. Você aí, arisca quando te ofereço minhas lentes, bem sabe que é verdade. Assim como também sei e tenho que engolir que você sabe como me desnudar, meu maior incômodo no mundo. E penso agora, só nos conhecemos bem porque somos por demais parecidos. Nossa treta começa na nossa vulnerabilidade cutucada um pelo outro, mas vamos deixar pra trás esse vício e sermos amenos um com outro. Seja boa comigo? Vamos nos desligar desse mundo de competições, ordens e regras, vamos deixar tudo fluir? Sem adornos, sem terceiros, sem mistérios nem conclusões precipitadas. Vamos? Tudo que há no mundo é invenção, pouco do que temos é real, todo resto é inventado para nos pesar a vida. Será que você abdica de todas as convenções para nós pirarmos juntos? Estou planejando um desbunde, cansei das doses homeopáticas de piração. Quero mais, sabe? Um lance na veia. Caetano já foi tão legal e eu ando tão aleatório numa vibe estranha de querer ser entendido sem precisar do esforço de me fazer entender. Não é possível que estrangeirismo seja pra vida toda, né? Espero que passe ou que eu encontre, enfim, você de novo. No fim das contas, apesar de tudo e de todos, dos outros e de mim, eu estou vivo. Muito vivo, enfim. Que dia você vem?

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Obituário

Engasguei com palavra presa na garganta atrapalhando a passagem do ar. Palavra velha criou bolor no meu estômago e atrapalha minha digestão de tudo que como, de todos que bebo e também do que sinto. Engravidei de distração: a política, as novas músicas, a nova novela, a moça do tempo, o ajuste fiscal, todas as novas regras dessa nossa velha vida, os prazos, mil notícias por minuto e os livros abandonados na estante. Longe, distraído, amortecido e desligado, esqueci do meu umbigo. E foi hoje no banho que voltei a notá-lo: estufado, feio e deformado. Hérnia. Palavra sem saída. E agora tudo que tenho é palavra mal formada retirada num aborto provocado antes que vire pedra ou coisa pior: mágoa. Que me desculpem os bons adestradores da linguagem, mas serei medíocre, brega, piegas, pleonástico e talvez até mórbido, porque o que agora me pede passagem é só palavra carpideira lamuriando a própria morte. O que virá a seguir são relatos de vida pretérita aleatoriamente arranjados, assim como a vida, nunca linear.

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O traço de Oyá

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Sofro de um mal que percorre os séculos e todas as letras em todos os idiomas. Sofro de incompletudes. Manoel de Barros também tinha suas incompletudes e descreveu melhor que ninguém o que é vazio. E soube também preencher vazio com canto de passarinho. Mas eu infelizmente sou urbano. Cercado de concreto, muros, regras e modos. Fico com vontade de um mato, um canto, outra vida, outros valores. Casa no Campo, tamanho grande, tijolinhos de barro e tapeçaria artesanal e coisas assim. Caneca esmaltada até já tenho em casa. Devaneio em meus pensamentos montando lares distintos, ora longe, ora perto, ora aqui mesmo. Às vezes dez anos à frente, outras vezes quatro anos atrás. Dois mil e onze foi um ano bonito – recordo. Incompletude não tem cura – concluo. Aí por onde andei, em cada praça, cada rua, cada canto e cada curva eu deixei pedaços meus em troca de saudades. A memória tornou-se morada dos cheiros, dos gostos e das formas: de lugares, de atmosferas, horizontes e pessoas. Descobri afeto em outras latitudes e nunca mais consegui voltar totalmente para onde resido. Vou me largando por aí, involuntariamente entregando meus eus e não sei se é dádiva ou danação essa coisa de carregar saudades e vontades. Sou estrangeiro em todos os lugares, mas sei fazer lar em olhares recíprocos, sorrisos abertos e almas reluzentes. Não sei renunciar à liberdade de descobrir motivos para acumular outras saudades e agravar minha incompletude.

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Casa VII

De-Sph2Saturno (1)

Não sei se o que sinto é alegria, ciúmes ou o quê. Sinto é estranheza. Estranheza que é até boa e que me preenche, que me rabisca um sorriso no rosto quando me apareces assim reluzente, cara lavada e fala mansa, me contando dos seus novos casos e das novidades aí noutro hemisfério. E me dá um calafrio misto de tesão quando declara saudade do nosso amor, quando por vieses cândidos rememora nossas transas. Eu provoco, você retribui, expandimos a imaginação, selamos um futuro possível de um reencontro catártico e quente dos nossos corpos. Preciso revisitar cada centímetro da tua pele morena. Preciso novamente dos teus avanços inesperados, dos teus sussurros, dos teus mistérios e de toda a reciprocidade que nos envolve: sintonia. Que os astros e todas as deidades nos ouçam e façam valer aquilo que nossos mapas astrais nos revelaram: seremos pra sempre, compartilhamos Saturno na casa VII.

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