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Estive longe. Longe por querer e também por necessidade. Longe do meu eu mais denso, do mundo confuso que por tanto tempo cultivei e hoje se mantém por teimosia em estado de latência em mim. Mas quando a vida parece por demais outra vida que não a minha idealizada, quando todos parecem lobotomizados pagadores de conta, não tenho outra opção e me volto a mim. Flerto com a loucura, encho a cara, planejo fugas reais, penso, penso e penso. Noites inteiras de ideias e planos, poucas horas de sono, olheiras marcando o rosto e um estrangeirismo nítido no sorriso cordial e automático de bom dia aos colegas de trabalho, que em dias como os de agora parecem todos insuportáveis. Gente de mentira vivendo vidas de mentira e cumprindo punições por violarem regras de mentira. Casamentos infelizes compensados com descontrole financeiro, vejo todo dia. Uma tá buscando por todo o tempo alguma forma de autopunição por quebrar as regras que o mundo a impõe. Está todo dia triste comendo aveia pra tentar caber num 38. Parece seguir o Evangelho da Granola, quer converter todos ao seu redor. Porre. Ficou chata. A outra passa o dia fazendo marketing pessoal e do casamento no Facebook. Faz tudo parecer perfeito, tira foto do macarrão que fez na janta, “100 dias felizes”, declarações de amor copiadas de algum site de mensagens mal feito com layout de 2004. Chata. Um dia ficou bêbada no happy hour e soltou que o marido não transa mais com ela. Para que então tanta declaração? Eu não sei me encaixar e nem fingir que acho tudo isso legal. Penso, penso, penso. Planejo fugas reais. Ouço Belchior e Sérgio Sampaio. Encontro respostas e esperanças. Dois loucos. Meus gurus nesses tempos tão hostis. Ainda tem todo o emaranhado político lá de Brasília, da capital e daqui. Querem minha opinião, estou farto e queria estar por fora. Que maravilha deve ser exercitar a indiferença. Conheci uma menina. A gente se admira e ela é bonita. Também leu Caio Fernando Abreu. Sorrimos quando sem perceber eu lancei uma referência e ela entendeu. Fora isso, vivemos n’outra sintonia. Ela está virando gente grande, o salário multiplicou nos últimos anos e agora ela quer ser fina. Jantar em restaurante caro, roupa de grife, viagem internacional, tudo importado. Eu quero ser bagaceiro. Viajar pra Manaus, tomar cerveja nacional, bater perna pesquisando preço e ir pra feira comer pastel. Descobri que amo ir pra feira. Pechinchar o preço da batata-salsa, pedir um pedaço do queijo pra ver se levo ou não, 4 caixas de morangos por 10 reais: felicidade! Fiz 28 e nada mudou do dia pra noite, mas Saturno tá retornando. Passei o ano procrastinando meus estudos de tarô, mas li tudo que encontrei de Manuel Bandeira. Não comentei com ninguém, não houve com quem. Revi meus amores. Dei outros fins a eles. Dormi menos de 4 horas e o relógio já despertou me mandando ir trabalhar. Sento na cama, esfrego os olhos, faço o em-nome-do-pai e peço em oração: “fora Temer, volta Blchior!”

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Reincidências

Te conheci púbere e te quis de modo muito egoísta, como se fosse possível te guardar numa redoma que preservasse seus ares virginais e toda aquele frescor que preservado na aura de quem ainda é cheia de estreias resguardadas. Não deu. Nem para mim e nem para você. Deliramos nas possibilidades de sermos e expandimo-nos. Os nossos caminhos se distanciaram, se aproximaram, se entrecruzaram, se opuseram e depois se aproximaram novamente e agora eu fico me perguntando em quem nos tornamos e nas tantas curvas que a vida fez. Nossas histórias, quando distantes um do outro, nos impregnaram outros vícios, outros jeitos, outro ritmo e não entendo porque eu ainda busco em ti resquícios de seu outro eu. São todas tentativas frustradas. E não consigo cessar minha busca porque sinto que reencontrá-la é encontrar também parte de mim, macia e ávida de amores, que perdi em alguma curva pretérita. Nessa busca me sobram impasses e saudades de tudo que prometemos ser e viver e pouco a pouco vou percebendo que essa minha mania de deixar tudo em reticências é escolha errante para quem não se agrada em andar em círculos. Antes ter tido coragem de te dar tchau quando para mim bastou. Ou antes ter aceitado suas tempestades como minhas também na esperança de um futuro-incerto-céu-azul. Não sei. Sei pouco e cada vez menos. Que ilusão a nossa achar que o Tempo dará conta de tudo por nós. Não dá. Você é o meu nó. E eu parto desse princípio. Hoje eu entendo quais os nossos papéis nessa história oscilante. Partindo do princípio que somos fugazes e reincidentes, me ajuda a entender: como nos esgotar?

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Clichê de Adeus

Eu queria de novo aqui aquele encantamento de quando te conheci e enxerguei na sua íris verde toda a imensidão do mar. Não encontro. Eu não te culpo. Eu não me culpo. Não sei o que há. Sinceramente não sei. Saiba que todo esse imbróglio dói em mim também. Sem essa de querer competir quem está mais fodido no fim das contas, os fins não são doces para ninguém. “Que um dia possamos ser bons amigos!” – o discurso dos canalhas. Eu aprendi a partir e não sei insistir quando não quero mais, dispenso todo “mas” para ser fiel aos meus sentimentos. Desconforto não é coisa com a qual pretendo um dia me habituar. E daqui pra frente eu espero que saibamos abrir a porta para outros amores e que todo peso seja enterrado antes da chegada da próxima estação. Diz o ditado que desamor com amor se cura. Por “amor”, entenda-se: em todas as formas, possibilidades e configurações. Por agora, o que me cura é o meu amor próprio. Eu digo adeus como um sinônimo de liberdade.

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17 de abril de 2016

Eu ando desconfiado da integridade moral de todos aqueles que estão levando suas vidinhas normalmente sem um nó na garganta sequer. Seja lá qual for o motivo do nó ter sido plantado sufocando sua glote, espera-se que ali esteja ele, com presença mais ou menos imponente, incômodo nas vinte e quatro horas do dia, como devem ser as angústias. O ar está denso, parado, pesado e quente. Outono se recusa a dar as caras por aqui. Energia estagnada. Nó crescente na garganta de todos aqueles que sentem. O futuro distópico é hoje. Foi domingo. Como num quadro de macabro em releitura de Dalí. A memória tenta persistir e brota timidamente dentre brutalidades, tem gosto de coágulos de sangue e covardia. Mas persiste. Renasce como que vivida no coração e na mente dos poucos que ainda ousam sentir. Amar, transar, existir, ser e todos os outros verbos que deveriam exprimir somente prazer agora soam afrontosos. Pois que afrontem hoje, amanhã e cada dia mais! Não silenciem as dores, tampouco as alegrias, porque vai ser através de um grito catártico e cheio de gozo que esse nó sufocante preso na garganta será vomitado na cara dos malditos!

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Caminhos

Dar sentido à vida, por vezes, torna-se algo maior que a própria vida. Envelhecer é difícil, crescem as cobranças íntimas e também as alheias, crescem os medos porque a idade te tira o direito de errar por imperícia. Todos esperam algo de ti. Você espera algo de ti. E em meio a tantas expectativas é preciso ser você, encontrar sentido no seu cotidiano e buscar lugar. Já disse e repito como mantra que a vida é, em essência, uma busca por acolhimento, uma vontade urgente de livrar-se do estrangeirismo que assombra todo aquele que um dia escolheu sair da caverna. É foda. Não tem caminho de volta para nada do que conhecemos e desconstruímos durante nossa jornada, e à medida que afastamo-nos da caverna, tornamo-nos mais estrangeiros nesse mundo, mais distantes da maioria e aí, sem ter como voltar, haja culhão para sustentar seus desejos, vontades e posicionamentos dissidentes! Cientes de que toda escolha é também uma (ou muitas) renúncia, aceitamos com resignação quando o caminho se torna difícil, mas a aceitação não torna a caminhada mais fácil, sequer menos dolorosa. Dá câimbra, fadiga todos os músculos e esgota a mente. Nesses dias, meu amigo, qualquer sorriso é abrigo e todo abraço é porto. Buscar autonomia e autoconhecimento não nos livra da vulnerabilidade, o que muda é o modo como lidamos diante das nossas fraquezas. A melancolia e o tédio é espaço necessário para o crescimento. Busco meu tédio e quero cultivá-lo até conseguir levar a última instância o aprimoramento do meu Eu. Quero espaço, quero vazio e madrugadas inteiras de imersão. Também quero acolhimento sem farpas, entendimento sem julgamento de valor e lealdade desinteressada. Às vezes temo estar em processo de desaprendimento de tudo nesse mundo, perdido na velocidade fria das relações rasas, daí eu deixo em latência toda a densidade para pegar fôlego e prosseguir. Mas uma hora tudo vem à tona. Uma hora, sem aviso prévio, a gente se derrama. E o sentido, a definição cognitiva, pouco importa. Vale de prova as marcas que a vida nos imprime. Ora com força, ora arrastada, a vida se expande. Carcará desgarrado nunca mais volta pro ninho.

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Oração pelo aprazível

Adquiri o hábito de rezar há alguns anos. Minha mãe, religiosa que é, sempre insistiu que eu rezasse. Eu até obedecia, às vezes. A minha obediência nunca foi constante. Rezava de vez em quando um Pai Nosso, que é a oração automática que vem na cabeça de todo mundo. Pai Nosso que estais no céu, bendito seja, digo, santificado seja… e me perdia. Tentava retomar já com remorso por ter deixado o pensamento voar, até chegar a hora do amém e terminar aquela tarefa que, na maioria das vezes, eu fazia sem a certeza do que dizia. Só consegui resolver meu problema de falta de atenção com a oração quando eu desenvolvi o meu próprio caminho espiritual.

Uma das primeiras coisas que a gente aprende quando chega num terreiro, talvez a principal delas, é bater cabeça para os orixás. Isto é, reverenciá-los e render-se a eles, num rito onde levamos a cabeça ao chão, tanto como sinal de respeito e submissão quanto por ligação com a energia telúrica. E no ato de bater cabeça, no que se pensa? O que se reza? Essa é a dúvida de todos. E então eu aprendi que ali batendo cabeça é o momento da nossa oração pessoal. Não aquele automático Pai Nosso e Ave Maria, mas sim a oração que vem de dentro, é o nosso abrir-se com o orixá, nosso momento de ligação com a nossa essência e a nossa ancestralidade. A prática da oração não se restringiu ao terreiro, em casa também eu passei a rezar. Faça chuva ou faça sol, nos dias bons e nos dias ruins, indo dormir às 11 da noite ou às 6 da manhã, eu passei a rezar.

Na oração livre, sem engessamento, flui o verbo. Agradecimentos, pedidos de proteção a mim e aos meus e desejos. No momento de oração é onde passei a dar forma, racionalizar e externar os meus desejos. E os desejos são muitos, com todo mundo é assim, acredito eu. Então desde o princípio eu tive o cuidado de equilibrar desejo com agradecimento, pra não sobrecarregar os santos. Desculpe qualquer decepção pela lógica infantil, mas é isso. Nessa de desejar e colocar esses desejos em movimento, encarregando o mundo espiritual de mover as energias necessárias para a realização do mesmo, a gente pede de tudo. O concreto e o não concreto, o real e o abstrato, desejos a curto, médio e a longo prazo, todos eles presente nas orações diárias antes de dormir e, dependendo da urgência, também ao acordar.

Além de rezar, também aprendi no terreiro que é preciso ter cuidado com o que a gente deseja. Não por uma questão de ficar se policiando e cerceando suas vontades, mas sim porque, hora ou outra, o desejo se realiza e a realidade das coisas é sempre maior do que supõe nossa razão. Digo isso porque em infinitas vezes me vi um tanto quanto perdido diante de um desejo realizado. Será mesmo que foi isso que pedi? Será mesmo isso? E sempre é, analisando friamente, nunca tive um desejo frustrado, muitas das vezes o que falta é a amplitude necessária para enxergar as coisas como elas realmente são. Somos pequenos. Pequenos e limitados.

Nas minhas conversas íntimas com minha mãe, a Rainha do Mar, pedi repetidas vezes que suas ondas levassem para longe de mim tudo aquilo que não me servia, tudo que maculava o meu corpo físico e espiritual, enfim, tudo o que me fizesse mal. E assim me atendeu Iemanjá. Na minha pequeneza, na minha memória curta, por vezes questionei minhas perdas. Vi indo embora coisas, pessoas, sentimentos, sensações e me indagava o que estava acontecendo. Eita ano difícil! Mas numa fagulha de luz, uma epifania me clareou: eu não perdi nada, eu recebi livramentos. Agradeço sinceramente por esse 2015 que mesmo denso e complicado, foi essencial para apurar minha essência e chegar mais perto do que realmente me apraz.

E que 2016 chegue com frescor e brandura, leveza e claridades. Epa babá! Odoyá!

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Subtrações

Eu já perdi pessoas de todas as formas possíveis. Ou pelo menos pensei que sim, mas a vida sempre se encarrega de nos mostrar que pouco ou nada sabemos dela. Perdi de novo, mas agora foi diferente. Perda sem despedida, sem dor e pasmem: perda sem distância. Está perto, mas não sei como está. Está perto, mas não sei mais como pensa, não entendo o que fala e não acompanho mais seus passos. É um jeito estranho de perder, mais incômodo que dolorido, e por ser tão incômodo, vezenquando faz crescer uma amargura no pensamento e aperta o peito.

Tudo bem que tudo muda, incluem-se aí as pessoas, mas qual é a linha que separa a mudança da descaracterização? Ela é tênue e nos exige coragem, só enxerga essa linha quem se dispõe a ver com crueza e justiça os seus afetos. É caro não deixar que a proximidade nos cegue. Eu escolhi enxergar. E a partir daí eu deixei de achar interessante o que via, deixei de admirar suas formas, seus sons e seus tons. Fui estranhando tudo. Desconhecendo cada dia mais até que, por fim, admiti: eu perdi.

Estamos nós agora separados por anos-luz de distância e talvez algumas interpretações tortas e mal-entendidos também. Eu sinalizei tantas vezes que as coisas estavam tomando um rumo obscuro e mesmo assim o risco foi assumido. Vislumbre mata amizade, obstinação ceifa autenticidade. E agora seus muros não permitem nem uma conversa íntima. E agora seus muros te afasta não só de gente, mas também do seu Eu mais reluzente. Cobranças não cabem aqui, tampouco quero dizer-lhe como pode ou deve agir, mas a saudade a gente não racionaliza, essa a gente não engana e, poxa, meu peito está cheio de saudade!

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