Vivo

Baby, I’m alive, vivo muito vivo feel the sound of music banging in my belly. Know that one day I must die. I’m alive!”

Eu te vejo daqui com a sensação pretensiosa que eu, de longe, te enxergo melhor que aqueles que te rondam. Você aí, arisca quando te ofereço minhas lentes, bem sabe que é verdade. Assim como também sei e tenho que engolir que você sabe como me desnudar, meu maior incômodo no mundo. E penso agora, só nos conhecemos bem porque somos por demais parecidos. Nossa treta começa na nossa vulnerabilidade cutucada um pelo outro, mas vamos deixar pra trás esse vício e sermos amenos um com outro. Seja boa comigo? Vamos nos desligar desse mundo de competições, ordens e regras, vamos deixar tudo fluir? Sem adornos, sem terceiros, sem mistérios nem conclusões precipitadas. Vamos? Tudo que há no mundo é invenção, pouco do que temos é real, todo resto é inventado para nos pesar a vida. Será que você abdica de todas as convenções para nós pirarmos juntos? Estou planejando um desbunde, cansei das doses homeopáticas de piração. Quero mais, sabe? Um lance na veia. Caetano já foi tão legal e eu ando tão aleatório numa vibe estranha de querer ser entendido sem precisar do esforço de me fazer entender. Não é possível que estrangeirismo seja pra vida toda, né? Espero que passe ou que eu encontre, enfim, você de novo. No fim das contas, apesar de tudo e de todos, dos outros e de mim, eu estou vivo. Muito vivo, enfim. Que dia você vem?

Padrão

Obituário

Engasguei com palavra presa na garganta atrapalhando a passagem do ar. Palavra velha criou bolor no meu estômago e atrapalha minha digestão de tudo que como, de todos que bebo e também do que sinto. Engravidei de distração: a política, as novas músicas, a nova novela, a moça do tempo, o ajuste fiscal, todas as novas regras dessa nossa velha vida, os prazos, mil notícias por minuto e os livros abandonados na estante. Longe, distraído, amortecido e desligado, esqueci do meu umbigo. E foi hoje no banho que voltei a notá-lo: estufado, feio e deformado. Hérnia. Palavra sem saída. E agora tudo que tenho é palavra mal formada retirada num aborto provocado antes que vire pedra ou coisa pior: mágoa. Que me desculpem os bons adestradores da linguagem, mas serei medíocre, brega, piegas, pleonástico e talvez até mórbido, porque o que agora me pede passagem é só palavra carpideira lamuriando a própria morte. O que virá a seguir são relatos de vida pretérita aleatoriamente arranjados, assim como a vida, nunca linear.

Padrão

O traço de Oyá

osa-dos-ventos-azul-mar

Sofro de um mal que percorre os séculos e todas as letras em todos os idiomas. Sofro de incompletudes. Manoel de Barros também tinha suas incompletudes e descreveu melhor que ninguém o que é vazio. E soube também preencher vazio com canto de passarinho. Mas eu infelizmente sou urbano. Cercado de concreto, muros, regras e modos. Fico com vontade de um mato, um canto, outra vida, outros valores. Casa no Campo, tamanho grande, tijolinhos de barro e tapeçaria artesanal e coisas assim. Caneca esmaltada até já tenho em casa. Devaneio em meus pensamentos montando lares distintos, ora longe, ora perto, ora aqui mesmo. Às vezes dez anos à frente, outras vezes quatro anos atrás. Dois mil e onze foi um ano bonito – recordo. Incompletude não tem cura – concluo. Aí por onde andei, em cada praça, cada rua, cada canto e cada curva eu deixei pedaços meus em troca de saudades. A memória tornou-se morada dos cheiros, dos gostos e das formas: de lugares, de atmosferas, horizontes e pessoas. Descobri afeto em outras latitudes e nunca mais consegui voltar totalmente para onde resido. Vou me largando por aí, involuntariamente entregando meus eus e não sei se é dádiva ou danação essa coisa de carregar saudades e vontades. Sou estrangeiro em todos os lugares, mas sei fazer lar em olhares recíprocos, sorrisos abertos e almas reluzentes. Não sei renunciar à liberdade de descobrir motivos para acumular outras saudades e agravar minha incompletude.

Padrão

Casa VII

De-Sph2Saturno (1)

Não sei se o que sinto é alegria, ciúmes ou o quê. Sinto é estranheza. Estranheza que é até boa e que me preenche, que me rabisca um sorriso no rosto quando me apareces assim reluzente, cara lavada e fala mansa, me contando dos seus novos casos e das novidades aí noutro hemisfério. E me dá um calafrio misto de tesão quando declara saudade do nosso amor, quando por vieses cândidos rememora nossas transas. Eu provoco, você retribui, expandimos a imaginação, selamos um futuro possível de um reencontro catártico e quente dos nossos corpos. Preciso revisitar cada centímetro da tua pele morena. Preciso novamente dos teus avanços inesperados, dos teus sussurros, dos teus mistérios e de toda a reciprocidade que nos envolve: sintonia. Que os astros e todas as deidades nos ouçam e façam valer aquilo que nossos mapas astrais nos revelaram: seremos pra sempre, compartilhamos Saturno na casa VII.

Padrão

Domingo Amargo

10898078_10424569_pmQuase três da manhã, fim de noite de domingo, já é segunda-feira e eu querendo achar algum lugar aberto para tomar a saideira e depois ir pra casa. Já cruzei quase a cidade toda a pé, tudo fechado. Choveu bastante algumas horas antes, tá tudo deserto, nem os bichos fazem barulho. Quase três da manhã e eu preciso de só mais uma cerveja para manter a minha onda e dormir tranquilo. Cansado e tranquilo, gosto de dormir assim, é como um transe. Saudade de quando tinham mais inferninhos nessa cidade, mas estão todos encaretando, até a cidade. A loja de conveniência doposto de combustível não vende álcool de madrugada. Que merda. Que inútil. Pego uma água e saio ironizando o atendente que foi escroto, emputecido porque eu só queria beber uma cerveja na rua e não consigo. Quase três da manhã e eu lembro das histórias que minha bisavó contava. Às três da manhã foi a hora em que Judas traiu Jesus, ela dizia, é a melhor hora para se fazer feitiços de morte. Não tenho medo da rua escura, até gosto, luz incomoda meus olhos, a luz branca quase me corta. Quase três da manhã e lembro de um trailer que pode estar aberto. Vou precisar andar mais um tanto, mas agora tanto faz, às três da manhã pouca coisa importa realmente. Tá aberto, ufa! Peço uma cerveja no balcão, já tem gente passando para ir trabalhar. Afasto-me um pouco dali, a luz é clara, procuro uma sombra mais adiante, sento num banco de alvenaria gelado para tomar minha cerveja. Minhas papilas gustativas estão em festa. Cerveja gelada! Uma mulher se aproxima, pede cigarro, mas só tenho isqueiro. Desconfia, me olha meio de lado, pergunta se curto um beck. Pensei que a resposta positiva me traria uma ponta salvadora, que nada, o que ela tem é pó. Senta-se ao meu lado, bate uma carreira, diz que é minha vez, mas nego, não curto a vibe, ela me xinga, nem ligo. Há uma hostilidade no ar que não consigo interpretar e nem desconstruir. Ela pega meu copo e o borra todo de batom. Bebe num gole. Diz que é puta, me chama pra trepar, domingo é mais barato, cem reais por uma hora. Anal maravilhoso, ela se gaba. Eu rio. Não pago por sexo, acho escroto, não me dá tesão. Gosto é da conquista, dinheiro é atalho, objetivo demais para me excitar. Ela levanta bruscamente, parece brava, imagino que deve ter alguma faca ou canivete, mas estou de boa, não consigo sentir medo. Pede dinheiro pra outra cerveja, eu dou. Ela volta, senta-se ao meu lado, já é outra pessoa, agora tão mais doce, parece vulnerável, quer me contar histórias. Entre um gole e outro arruma o sutiã, mexe nos seios, parece querer me provocar. Confere com o olho meu pau. Vejo tudo como se estivesse de fora, mas tô preso num corpo embriagado, com os lábios quase dormentes. Os ouvidos estão atentos, tento não bocejar para que ela não se ofenda, são histórias interessantes. Ela tem clientes mensalistas, todos casados. Um deles curte beijo grego. Sinto um pouco de nojo, mas não demonstro, apenas rio, faço uma pergunta qualquer, ela ignora, continua sua história. Diz que o cara tem mau hálito, então ela prefere nem conversar muito com ele, prefere fazer logo o beijo grego e ir embora. O celular toca, ela sai rebolando e pisando nas poças d’água, quase cai por causa de um paralelepípedo torto. Grita um palavrão e some ao dobrar uma esquina. O dia tá claro, meus olhos ardem, só preciso dormir. Sinto a boca apertar de tão seca. Gosto amargo. Vou acordar de ressaca.

Padrão

Pontuação

ciclo_vida_folha

Acertei com o acaso o dia e o jeito certo de te encontrar. Vou fingir despretensão, que é o que faço de melhor. Vou falar pouco de mim e perguntar bastante de você, que é o que faço bem. E vou notar cada um dos seus detalhes. Seus tons, suas linhas, suas curvas e suas cores. Como um aluno que aprende uma nova matéria fascinado pelas descobertas, porque o que excita é descobrir. – E assim nasce mais um encantamento, essa coisa que me move e me rebuli, mas que eu sou hesitante em chamar de amor. Não por falta de fé na perenidade do sentimento, mas porque encantamento me parece ser algo tão mais livre e condizente com o estado em que a gente ficar. O encantamento é embelezador, realça as cores do mundo e floreia onde só havia concreto. Se der, por sorte e outros princípios involuntários, esse encantamento vira amor. Amor suporta o peso do cotidiano e tem lá suas características controversas. Encantamento não, porque encantamento corre solto. Encantamento é aquele que flui. E minha reza a Oxum é para que tudo entre nós flua como as águas de um rio caudaloso. E então eu vou te cultivar e invadir até o dia que isso chegue num fim, que pode ser reticente ou fatal. O fim é quando a gente se esquece de como descobrir. Depois a gente discute que papel coube a quem, depois eu espero o tempo abrandando nossos incômodos e quem sabe há outra aproximação? Um último beijo, outra briga, asperezas e silêncios. Cada um pro seu lado, clamando à vida por um outro caso, outro encantamento, outro amor. Um novo castelo para outras expectativas.

Padrão

Mariposa

mariposa_by_juaniitogoldenlight-d5f5gy3

É em fim de noite de domingo que a solidão, antes encasulada, cria asas e preenche os cômodos da casa silenciosa. Eu finjo não ter medo quando a solidão vem com suas asas por trás de mim e me causa arrepio com seu sopro frio arrepiando a minha nuca. Ela me sussurra barbaridades existenciais e sinto medo. Calafrios. A solidão é pura nóia. Inventa. Te assombra. Te rodeia. E se você abre guarda, a solidão te come. Por trás, com força e a seco. Na tentativa de escapar, a gente cria atalhos tolos e frívolos. Aumenta o som da TV, coloca uma música inútil pra tocar, vagueia por páginas e mais páginas e quando menos espera, seu corpo está te traindo ao resgatar uma memória dolorida. Ou então você está lá procurando por alguma foto de quem você não mais deveria se importar. Neste ponto a solidão já enfiou a cabecinha. Tudo é risco. Você tenta escapar do pensamento, das memórias afetivas e de tudo mais que ficou pelo caminho, mas é tarde demais. Daí, sem saída, o jeito é relaxar. Deixa entrar e fazer rebuliço. Deixa cansar, desgastar, desidratar. Na segunda-feira o relógio não perdoa, despertador toca cedo, solidão não tem espaço em meio a correria, perde as asas e morre antes do meio-dia.

Padrão