Domingo Amargo

10898078_10424569_pmQuase três da manhã, fim de noite de domingo, já é segunda-feira e eu querendo achar algum lugar aberto para tomar a saideira e depois ir pra casa. Já cruzei quase a cidade toda a pé, tudo fechado. Choveu bastante algumas horas antes, tá tudo deserto, nem os bichos fazem barulho. Quase três da manhã e eu preciso de só mais uma cerveja para manter a minha onda e dormir tranquilo. Cansado e tranquilo, gosto de dormir assim, é como um transe. Saudade de quando tinham mais inferninhos nessa cidade, mas estão todos encaretando, até a cidade. A loja de conveniência doposto de combustível não vende álcool de madrugada. Que merda. Que inútil. Pego uma água e saio ironizando o atendente que foi escroto, emputecido porque eu só queria beber uma cerveja na rua e não consigo. Quase três da manhã e eu lembro das histórias que minha bisavó contava. Às três da manhã foi a hora em que Judas traiu Jesus, ela dizia, é a melhor hora para se fazer feitiços de morte. Não tenho medo da rua escura, até gosto, luz incomoda meus olhos, a luz branca quase me corta. Quase três da manhã e lembro de um trailer que pode estar aberto. Vou precisar andar mais um tanto, mas agora tanto faz, às três da manhã pouca coisa importa realmente. Tá aberto, ufa! Peço uma cerveja no balcão, já tem gente passando para ir trabalhar. Afasto-me um pouco dali, a luz é clara, procuro uma sombra mais adiante, sento num banco de alvenaria gelado para tomar minha cerveja. Minhas papilas gustativas estão em festa. Cerveja gelada! Uma mulher se aproxima, pede cigarro, mas só tenho isqueiro. Desconfia, me olha meio de lado, pergunta se curto um beck. Pensei que a resposta positiva me traria uma ponta salvadora, que nada, o que ela tem é pó. Senta-se ao meu lado, bate uma carreira, diz que é minha vez, mas nego, não curto a vibe, ela me xinga, nem ligo. Há uma hostilidade no ar que não consigo interpretar e nem desconstruir. Ela pega meu copo e o borra todo de batom. Bebe num gole. Diz que é puta, me chama pra trepar, domingo é mais barato, cem reais por uma hora. Anal maravilhoso, ela se gaba. Eu rio. Não pago por sexo, acho escroto, não me dá tesão. Gosto é da conquista, dinheiro é atalho, objetivo demais para me excitar. Ela levanta bruscamente, parece brava, imagino que deve ter alguma faca ou canivete, mas estou de boa, não consigo sentir medo. Pede dinheiro pra outra cerveja, eu dou. Ela volta, senta-se ao meu lado, já é outra pessoa, agora tão mais doce, parece vulnerável, quer me contar histórias. Entre um gole e outro arruma o sutiã, mexe nos seios, parece querer me provocar. Confere com o olho meu pau. Vejo tudo como se estivesse de fora, mas tô preso num corpo embriagado, com os lábios quase dormentes. Os ouvidos estão atentos, tento não bocejar para que ela não se ofenda, são histórias interessantes. Ela tem clientes mensalistas, todos casados. Um deles curte beijo grego. Sinto um pouco de nojo, mas não demonstro, apenas rio, faço uma pergunta qualquer, ela ignora, continua sua história. Diz que o cara tem mau hálito, então ela prefere nem conversar muito com ele, prefere fazer logo o beijo grego e ir embora. O celular toca, ela sai rebolando e pisando nas poças d’água, quase cai por causa de um paralelepípedo torto. Grita um palavrão e some ao dobrar uma esquina. O dia tá claro, meus olhos ardem, só preciso dormir. Sinto a boca apertar de tão seca. Gosto amargo. Vou acordar de ressaca.

Pontuação

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Acertei com o acaso o dia e o jeito certo de te encontrar. Vou fingir despretensão, que é o que faço de melhor. Vou falar pouco de mim e perguntar bastante de você, que é o que faço bem. E vou notar cada um dos seus detalhes. Seus tons, suas linhas, suas curvas e suas cores. Como um aluno que aprende uma nova matéria fascinado pelas descobertas, porque o que excita é descobrir. – E assim nasce mais um encantamento, essa coisa que me move e me rebuli, mas que eu sou hesitante em chamar de amor. Não por falta de fé na perenidade do sentimento, mas porque encantamento me parece ser algo tão mais livre e condizente com o estado em que a gente ficar. O encantamento é embelezador, realça as cores do mundo e floreia onde só havia concreto. Se der, por sorte e outros princípios involuntários, esse encantamento vira amor. Amor suporta o peso do cotidiano e tem lá suas características controversas. Encantamento não, porque encantamento corre solto. Encantamento é aquele que flui. E minha reza a Oxum é para que tudo entre nós flua como as águas de um rio caudaloso. E então eu vou te cultivar e invadir até o dia que isso chegue num fim, que pode ser reticente ou fatal. O fim é quando a gente se esquece de como descobrir. Depois a gente discute que papel coube a quem, depois eu espero o tempo abrandando nossos incômodos e quem sabe há outra aproximação? Um último beijo, outra briga, asperezas e silêncios. Cada um pro seu lado, clamando à vida por um outro caso, outro encantamento, outro amor. Um novo castelo para outras expectativas.

Mariposa

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É em fim de noite de domingo que a solidão, antes encasulada, cria asas e preenche os cômodos da casa silenciosa. Eu finjo não ter medo quando a solidão vem com suas asas por trás de mim e me causa arrepio com seu sopro frio arrepiando a minha nuca. Ela me sussurra barbaridades existenciais e sinto medo. Calafrios. A solidão é pura nóia. Inventa. Te assombra. Te rodeia. E se você abre guarda, a solidão te come. Por trás, com força e a seco. Na tentativa de escapar, a gente cria atalhos tolos e frívolos. Aumenta o som da TV, coloca uma música inútil pra tocar, vagueia por páginas e mais páginas e quando menos espera, seu corpo está te traindo ao resgatar uma memória dolorida. Ou então você está lá procurando por alguma foto de quem você não mais deveria se importar. Neste ponto a solidão já enfiou a cabecinha. Tudo é risco. Você tenta escapar do pensamento, das memórias afetivas e de tudo mais que ficou pelo caminho, mas é tarde demais. Daí, sem saída, o jeito é relaxar. Deixa entrar e fazer rebuliço. Deixa cansar, desgastar, desidratar. Na segunda-feira o relógio não perdoa, despertador toca cedo, solidão não tem espaço em meio a correria, perde as asas e morre antes do meio-dia.

Mágoa de estimação

tumblr_n3sk79yghV1qfhbsvo1_1280Estamos vivendo em tempos difíceis. Por todos os aspectos, esses são tempos difíceis. O Congresso mais conservador dos últimos anos, a classe média reacionária, a gourmetização do cafézinho, o preço da cerveja, o pau de selfie, a selfie… acho tudo isso cansativo e tudo isso é muito difícil. Mas dentre as maiores dificuldades encontradas nesse cenário caótico, está a negação a mágoa. Gente, se liga, guardar mágoa é lindo. Não compre cachorros ou gatos, é escroto. Não invente de ter aquário em casa, dá muito trabalho. Cultive suas mágoas que a vantagem é bem maior. Vou listar.

Eu acho que cultivar uma mágoa faz da gente mais humano. Se não fossem pelas mágoas que cultivo, jamais entenderia um álbum da Simone e nem de nenhuma outra cantora de MPB. Se não fossem as mágoas, não teria aprendido a gostar de samba e nem de Gonzaguinha. A mágoa tem o poder de nos unir e isso não pode ser esquecido. Sem essa de que todo mundo dá volta por cima com beijinho no ombro e coisas do tipo, vamos assumir o rancor e cultivá-lo.

Quem cultiva mágoa cresce junto com ela. Mas não pode ser um rancor mesquinho, que isso te puxa pra baixo e causa câncer. Falo da mágoa bem estruturado, de porquês bem definidos e argumentos eficazes. Mágoa que a gente dá jeito com volta por cima, que espera o momento certo para se sentir vingada, rancores edificantes, esses sim, verdadeiros diamantes.

O rancor tem o incrível poder de nos ensinar a ser menos mimados, e por isso, também menos melindrosos. Quem aprendeu a guardar um rancor bem guardado não te enche o saco com lamentação, não vai te cobrar coisas pequenas que dizem respeito à sua individualidade. Portanto, afirmo também que o rancor nos faz mais autônomos. Quem tem lá a sua coleção de rancores, sabe interromper ciclos viciosos e não vai entrar pela milésima vez numa relação amorosa que todo mundo vê que vai ser fodida, porque não quer novos rancores lhe abarrotando o peito.

Por fim, o rancor nos leva a um conhecimento mais íntimo e profundo de nós mesmos. Rancor é lindo e está aí para facilitar nossas relações interpessoais. É um investimento a longo prazo, claro. De mágoa em mágoa a gente faz um rancor lindo.

- Mas desfaça-se dele a cada roda de samba, a cada descida até o chão na hora do funk. Antídoto de rancor é sempre catarse.

Lotação 440

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Delirei nas tuas possibilidades desde a primeira vez que te vi naquela manhã cinza de uma segunda-feira. Ônibus cheio, eu ofegante tentando entender como pude me atrasar, eu ansioso para chegar pontual no emprego e você ali reluzindo e desviando minha atenção, me embebedando de respostas e calmaria. Engravidei do teu olhar profundo, às vezes quase apático, que ao penetrar a minha pele fecundou os meus desejos encarnados. Ali mesmo eu te despi sem parcimônia e envolvi meu corpo em volta do teu, expandi cada poro com o vapor dos meus sussurros e explorei cada detalhe íntimo para a piração dos meus sentidos. Desembarquei.

NATUREZA

tumblr_n8z130nKli1t0jj16o1_1280Pedra é coisa aguda
Hermética
Estática
Seca

Pedra é coisa una
Ainda que porosa
Ainda que solúvel
Pedra é coisa pétrea

Não areia
Que areia é coisa múltipla
Que outrora pedra
Agora se afina com o tempo

Areia é quase vidro
Ou até cristal
Que se há de ter cuidados
Senão te escorre entre os dedos
Senão te esfola a pele

Sou areia, às vezes pedra
Mas sobretudo areia
Daquelas bem finas
Encontradas nas praias mais antigas
Pequenas partículas
Fruto da força das ondas
Ora calmas
Ora revoltas
E que nunca se junta
E que só sabe ser solta

(Porque areia é onde Xangô se encontra com Iemanjá)