Subtrações

Eu já perdi pessoas de todas as formas possíveis. Ou pelo menos pensei que sim, mas a vida sempre se encarrega de nos mostrar que pouco ou nada sabemos dela. Perdi de novo, mas agora foi diferente. Perda sem despedida, sem dor e pasmem: perda sem distância. Está perto, mas não sei como está. Está perto, mas não sei mais como pensa, não entendo o que fala e não acompanho mais seus passos. É um jeito estranho de perder, mais incômodo que dolorido, e por ser tão incômodo, vezenquando faz crescer uma amargura no pensamento e aperta o peito.

Tudo bem que tudo muda, incluem-se aí as pessoas, mas qual é a linha que separa a mudança da descaracterização? Ela é tênue e nos exige coragem, só enxerga essa linha quem se dispõe a ver com crueza e justiça os seus afetos. É caro não deixar que a proximidade nos cegue. Eu escolhi enxergar. E a partir daí eu deixei de achar interessante o que via, deixei de admirar suas formas, seus sons e seus tons. Fui estranhando tudo. Desconhecendo cada dia mais até que, por fim, admiti: eu perdi.

Estamos nós agora separados por anos-luz de distância e talvez algumas interpretações tortas e mal-entendidos também. Eu sinalizei tantas vezes que as coisas estavam tomando um rumo obscuro e mesmo assim o risco foi assumido. Vislumbre mata amizade, obstinação ceifa autenticidade. E agora seus muros não permitem nem uma conversa íntima. E agora seus muros te afasta não só de gente, mas também do seu Eu mais reluzente. Cobranças não cabem aqui, tampouco quero dizer-lhe como pode ou deve agir, mas a saudade a gente não racionaliza, essa a gente não engana e, poxa, meu peito está cheio de saudade!

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Carta

ImagemOi, amor

Há meses adio esta carta porque ainda tenho meus medos infantis de parecer menor ao demonstrar alguma vulnerabilidade. Sei que conversamos tanto sobre isso, mas esses defeitos parecem até que foram cravados com chumbo fundido em nós, de tão difícil que é se livrar deles.

Escrevo-te ainda sob o efeito catártico que obtive nos últimos dias. Andei riscando alguns títulos da minha lista de espera de livros e filmes. Estava precisando desse momento mais in, sabe? Lembra que sempre confidenciávamo-nos sobre nossos ditos casulos? Pois então, estou em crisálida. Crisálida que também fora adiada, tanto ou até mais que esta correspondência. Procrastine um mundo de coisas em nome dos prazeres baratos e rasos que a vida me ofertou. Precisava. Agora é hora de ir alocando os devaneios em seus devidos lugares e ajeitar tudo mais que andou meio jogado e esquecido pelo terreiro d’alma.

Outro dia saí atônito de uma sessão. O filme era demais, deveríamos ter visto juntos, caso não fosse essa distância colossal que agora separa nossas vidas. Minha mãe me trouxe notícias suas, disse ter te encontrado em uma loja lotada pelas comprar do Natal. Falou também da sua miúda, disse-me ter os seus mesmos olhos grandes e profundos no negro da íris. Eu que nunca fui de me enternecer com rebentos, tive os olhos quase marejados com a descrição empolgada de minha mãe.

Andei mergulhado nas linhas de Ana Cristina César. Ela me lembra você em muitos aspectos e devo admitir que foi agridoce lembrar das nossas tardes de domingo e de toda a nossa história. Penei um tempo para entender que não viver de nostalgia não era o mesmo que lutar contra a memória pulsante de um bom pretérito. Mas aprendi. Saudade sem tristeza, nostalgia sem melancolia — alguma coisa assim. E que linha tênue é recordar os seus sabores sem me amargurar inteiro pela falta de ti! Era mais fácil lidar com cicatrizes quando apenas discursávamos sobre elas. Mas Ana C. é incrível! Todo o universo construído pela poética dela me comove e me fascina. Como o seu sorriso e os seus olhos há tempos atrás…

Estou cuidando para tudo florir. Sou melhor que quando antes, é o que vejo, é o que percebo olhando para trás. Daqui sinto também que seu sorriso continua cintilando por aí. A polidez pegou mesmo a gente, né? Que engraçado… Nós dois… Polidos… Eu nunca vou deixar de te querer bem. Quando puder, coloque o “As Quatro Estações” para tocar. Beijos.

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