Subtrações

Eu já perdi pessoas de todas as formas possíveis. Ou pelo menos pensei que sim, mas a vida sempre se encarrega de nos mostrar que pouco ou nada sabemos dela. Perdi de novo, mas agora foi diferente. Perda sem despedida, sem dor e pasmem: perda sem distância. Está perto, mas não sei como está. Está perto, mas não sei mais como pensa, não entendo o que fala e não acompanho mais seus passos. É um jeito estranho de perder, mais incômodo que dolorido, e por ser tão incômodo, vezenquando faz crescer uma amargura no pensamento e aperta o peito.

Tudo bem que tudo muda, incluem-se aí as pessoas, mas qual é a linha que separa a mudança da descaracterização? Ela é tênue e nos exige coragem, só enxerga essa linha quem se dispõe a ver com crueza e justiça os seus afetos. É caro não deixar que a proximidade nos cegue. Eu escolhi enxergar. E a partir daí eu deixei de achar interessante o que via, deixei de admirar suas formas, seus sons e seus tons. Fui estranhando tudo. Desconhecendo cada dia mais até que, por fim, admiti: eu perdi.

Estamos nós agora separados por anos-luz de distância e talvez algumas interpretações tortas e mal-entendidos também. Eu sinalizei tantas vezes que as coisas estavam tomando um rumo obscuro e mesmo assim o risco foi assumido. Vislumbre mata amizade, obstinação ceifa autenticidade. E agora seus muros não permitem nem uma conversa íntima. E agora seus muros te afasta não só de gente, mas também do seu Eu mais reluzente. Cobranças não cabem aqui, tampouco quero dizer-lhe como pode ou deve agir, mas a saudade a gente não racionaliza, essa a gente não engana e, poxa, meu peito está cheio de saudade!

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Besteira qualquer

Maior besteira que fiz foi refazer os planos. Desistir dos meus planos e destinos para essa noite. Algo me prendeu, o ar ficou pesado, o vinho não bateu legal, sei lá, mas houve alguma coisa estranha sim. Deixei para trás qualquer atividade profícua ou divertida, abri espaço pras coisinhas miúdas. Quando dei por mim estava vendo o perfil do seu novo namorado e fazendo as piores comparações possíveis. Depois fui criticando cada detalhe, principalmente o português ruim. Como você consegue? Não entendo, vou deixando crescer meus piores lados, até sinto raiva. Tenho vontade de contar pra ele que seu hálito tem gosto de Hollywood vermelho. Mas ele já sabe, claro! O que dá na gente que de repente vem essa vontade de ferir? Rememoro seus segredos como se fosse capaz de usá-los contra você, mas gosto de pensar em maneiras de te atingir, como uma vingança para a minha solidão de agora. Mesquinharia total — eu sei. Penso nos teus defeitos como forma de me livrar de qualquer remorso. Quando resolvi te deixar eu sabia dessas noites viradas. Quando resolvi te deixar eu sabia que viria a falta, o corpo pedindo sexo,  os calafrios ao lembrar dos seus lábios molhando o meu pescoço. Mas está tudo bem,  eu sei bem porque estou aqui nesse momento. Eu não queria o peso que tinha a me oferecer. Não quero mexer no vespeiro cheio obscuro que há em você. Escrevo para me descarregar, porque nunca tive a coragem de dizer tudo isso a você. Nunca quis ser cruel, a idade me trouxe complacência. Então é isso. Tenho saudades, mas também tenho motivos. A má fama, pode espalhar, dizer pelos quatro cantos e ao vento que fiz isso e aquilo, que te abortei a nossa história e coisa assim. Meu nome não carrega nobreza. Aquilo que não edifica ninguém eu aprendi a guardar para mim.

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Vivo

Baby, I’m alive, vivo muito vivo feel the sound of music banging in my belly. Know that one day I must die. I’m alive!”

Eu te vejo daqui com a sensação pretensiosa que eu, de longe, te enxergo melhor que aqueles que te rondam. Você aí, arisca quando te ofereço minhas lentes, bem sabe que é verdade. Assim como também sei e tenho que engolir que você sabe como me desnudar, meu maior incômodo no mundo. E penso agora, só nos conhecemos bem porque somos por demais parecidos. Nossa treta começa na nossa vulnerabilidade cutucada um pelo outro, mas vamos deixar pra trás esse vício e sermos amenos um com outro. Seja boa comigo? Vamos nos desligar desse mundo de competições, ordens e regras, vamos deixar tudo fluir? Sem adornos, sem terceiros, sem mistérios nem conclusões precipitadas. Vamos? Tudo que há no mundo é invenção, pouco do que temos é real, todo resto é inventado para nos pesar a vida. Será que você abdica de todas as convenções para nós pirarmos juntos? Estou planejando um desbunde, cansei das doses homeopáticas de piração. Quero mais, sabe? Um lance na veia. Caetano já foi tão legal e eu ando tão aleatório numa vibe estranha de querer ser entendido sem precisar do esforço de me fazer entender. Não é possível que estrangeirismo seja pra vida toda, né? Espero que passe ou que eu encontre, enfim, você de novo. No fim das contas, apesar de tudo e de todos, dos outros e de mim, eu estou vivo. Muito vivo, enfim. Que dia você vem?

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Obituário

Engasguei com palavra presa na garganta atrapalhando a passagem do ar. Palavra velha criou bolor no meu estômago e atrapalha minha digestão de tudo que como, de todos que bebo e também do que sinto. Engravidei de distração: a política, as novas músicas, a nova novela, a moça do tempo, o ajuste fiscal, todas as novas regras dessa nossa velha vida, os prazos, mil notícias por minuto e os livros abandonados na estante. Longe, distraído, amortecido e desligado, esqueci do meu umbigo. E foi hoje no banho que voltei a notá-lo: estufado, feio e deformado. Hérnia. Palavra sem saída. E agora tudo que tenho é palavra mal formada retirada num aborto provocado antes que vire pedra ou coisa pior: mágoa. Que me desculpem os bons adestradores da linguagem, mas serei medíocre, brega, piegas, pleonástico e talvez até mórbido, porque o que agora me pede passagem é só palavra carpideira lamuriando a própria morte. O que virá a seguir são relatos de vida pretérita aleatoriamente arranjados, assim como a vida, nunca linear.

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O traço de Oyá

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Sofro de um mal que percorre os séculos e todas as letras em todos os idiomas. Sofro de incompletudes. Manoel de Barros também tinha suas incompletudes e descreveu melhor que ninguém o que é vazio. E soube também preencher vazio com canto de passarinho. Mas eu infelizmente sou urbano. Cercado de concreto, muros, regras e modos. Fico com vontade de um mato, um canto, outra vida, outros valores. Casa no Campo, tamanho grande, tijolinhos de barro e tapeçaria artesanal e coisas assim. Caneca esmaltada até já tenho em casa. Devaneio em meus pensamentos montando lares distintos, ora longe, ora perto, ora aqui mesmo. Às vezes dez anos à frente, outras vezes quatro anos atrás. Dois mil e onze foi um ano bonito – recordo. Incompletude não tem cura – concluo. Aí por onde andei, em cada praça, cada rua, cada canto e cada curva eu deixei pedaços meus em troca de saudades. A memória tornou-se morada dos cheiros, dos gostos e das formas: de lugares, de atmosferas, horizontes e pessoas. Descobri afeto em outras latitudes e nunca mais consegui voltar totalmente para onde resido. Vou me largando por aí, involuntariamente entregando meus eus e não sei se é dádiva ou danação essa coisa de carregar saudades e vontades. Sou estrangeiro em todos os lugares, mas sei fazer lar em olhares recíprocos, sorrisos abertos e almas reluzentes. Não sei renunciar à liberdade de descobrir motivos para acumular outras saudades e agravar minha incompletude.

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Casa VII

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Não sei se o que sinto é alegria, ciúmes ou o quê. Sinto é estranheza. Estranheza que é até boa e que me preenche, que me rabisca um sorriso no rosto quando me apareces assim reluzente, cara lavada e fala mansa, me contando dos seus novos casos e das novidades aí noutro hemisfério. E me dá um calafrio misto de tesão quando declara saudade do nosso amor, quando por vieses cândidos rememora nossas transas. Eu provoco, você retribui, expandimos a imaginação, selamos um futuro possível de um reencontro catártico e quente dos nossos corpos. Preciso revisitar cada centímetro da tua pele morena. Preciso novamente dos teus avanços inesperados, dos teus sussurros, dos teus mistérios e de toda a reciprocidade que nos envolve: sintonia. Que os astros e todas as deidades nos ouçam e façam valer aquilo que nossos mapas astrais nos revelaram: seremos pra sempre, compartilhamos Saturno na casa VII.

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Domingo Amargo

10898078_10424569_pmQuase três da manhã, fim de noite de domingo, já é segunda-feira e eu querendo achar algum lugar aberto para tomar a saideira e depois ir pra casa. Já cruzei quase a cidade toda a pé, tudo fechado. Choveu bastante algumas horas antes, tá tudo deserto, nem os bichos fazem barulho. Quase três da manhã e eu preciso de só mais uma cerveja para manter a minha onda e dormir tranquilo. Cansado e tranquilo, gosto de dormir assim, é como um transe. Saudade de quando tinham mais inferninhos nessa cidade, mas estão todos encaretando, até a cidade. A loja de conveniência doposto de combustível não vende álcool de madrugada. Que merda. Que inútil. Pego uma água e saio ironizando o atendente que foi escroto, emputecido porque eu só queria beber uma cerveja na rua e não consigo. Quase três da manhã e eu lembro das histórias que minha bisavó contava. Às três da manhã foi a hora em que Judas traiu Jesus, ela dizia, é a melhor hora para se fazer feitiços de morte. Não tenho medo da rua escura, até gosto, luz incomoda meus olhos, a luz branca quase me corta. Quase três da manhã e lembro de um trailer que pode estar aberto. Vou precisar andar mais um tanto, mas agora tanto faz, às três da manhã pouca coisa importa realmente. Tá aberto, ufa! Peço uma cerveja no balcão, já tem gente passando para ir trabalhar. Afasto-me um pouco dali, a luz é clara, procuro uma sombra mais adiante, sento num banco de alvenaria gelado para tomar minha cerveja. Minhas papilas gustativas estão em festa. Cerveja gelada! Uma mulher se aproxima, pede cigarro, mas só tenho isqueiro. Desconfia, me olha meio de lado, pergunta se curto um beck. Pensei que a resposta positiva me traria uma ponta salvadora, que nada, o que ela tem é pó. Senta-se ao meu lado, bate uma carreira, diz que é minha vez, mas nego, não curto a vibe, ela me xinga, nem ligo. Há uma hostilidade no ar que não consigo interpretar e nem desconstruir. Ela pega meu copo e o borra todo de batom. Bebe num gole. Diz que é puta, me chama pra trepar, domingo é mais barato, cem reais por uma hora. Anal maravilhoso, ela se gaba. Eu rio. Não pago por sexo, acho escroto, não me dá tesão. Gosto é da conquista, dinheiro é atalho, objetivo demais para me excitar. Ela levanta bruscamente, parece brava, imagino que deve ter alguma faca ou canivete, mas estou de boa, não consigo sentir medo. Pede dinheiro pra outra cerveja, eu dou. Ela volta, senta-se ao meu lado, já é outra pessoa, agora tão mais doce, parece vulnerável, quer me contar histórias. Entre um gole e outro arruma o sutiã, mexe nos seios, parece querer me provocar. Confere com o olho meu pau. Vejo tudo como se estivesse de fora, mas tô preso num corpo embriagado, com os lábios quase dormentes. Os ouvidos estão atentos, tento não bocejar para que ela não se ofenda, são histórias interessantes. Ela tem clientes mensalistas, todos casados. Um deles curte beijo grego. Sinto um pouco de nojo, mas não demonstro, apenas rio, faço uma pergunta qualquer, ela ignora, continua sua história. Diz que o cara tem mau hálito, então ela prefere nem conversar muito com ele, prefere fazer logo o beijo grego e ir embora. O celular toca, ela sai rebolando e pisando nas poças d’água, quase cai por causa de um paralelepípedo torto. Grita um palavrão e some ao dobrar uma esquina. O dia tá claro, meus olhos ardem, só preciso dormir. Sinto a boca apertar de tão seca. Gosto amargo. Vou acordar de ressaca.

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