Que nome tem?

Apagava os seus rastros por onde passava, como quem pudesse começar uma nova vida a qualquer momento. Ela não tinha apegos e fazia questão de não ter história. Falava muito sobre tudo, falava bem, possuía argumentos bonitos como se não tivesse vivido as mais terríveis decepções. Não falava de si. Ou se falava, era muito pouco, sempre de maneira dispersa e evasiva, mas igualmente convincente. Um dia a encontrei onde eu não esperava e quis lhe dar um abraço, sorrir e dizer coisas bonitas, mas não pude. Ela não me reconheceu, não quis me reconhecer, não me esperava ali enxergando-a cheia dos seus adornos ou alguma coisa assim. Talvez tudo isso junto. Ela não me reconheceu. Eu entendi. O contexto e a história entre mim e ela era outro e eu não fazia parte daquela história que ela vivia ali. Eu a entendi e sorri mesmo assim, meio que de longe, da maneira mais discreta possível. Ninguém entendeu eu tentar intimidade com aquela que me esnobou, mas eu entendi. Eu rememorei e desejei profundamente reviver o fascínio de antes. Tolice minha, eu sei. Depois do dia fatídico eu nunca mais a vi, e se vi foi como se não tivesse visto, respeitei sua decisão. Sou ouvido de muitas histórias, mas essa me foi contada sem uma palavra sequer, o olhar evasivo me disse tudo naquele dia. Só quem nos vira perdidos e sem destino certo naquela noite sabe do amor inato que descobrimos ali. Uma felicidade dilacerante nos atingia como quando crianças descobrindo o primeiro gozo. Com ela tudo me pareceu ser estreia. Que nome tem?

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Vivo

Baby, I’m alive, vivo muito vivo feel the sound of music banging in my belly. Know that one day I must die. I’m alive!”

Eu te vejo daqui com a sensação pretensiosa que eu, de longe, te enxergo melhor que aqueles que te rondam. Você aí, arisca quando te ofereço minhas lentes, bem sabe que é verdade. Assim como também sei e tenho que engolir que você sabe como me desnudar, meu maior incômodo no mundo. E penso agora, só nos conhecemos bem porque somos por demais parecidos. Nossa treta começa na nossa vulnerabilidade cutucada um pelo outro, mas vamos deixar pra trás esse vício e sermos amenos um com outro. Seja boa comigo? Vamos nos desligar desse mundo de competições, ordens e regras, vamos deixar tudo fluir? Sem adornos, sem terceiros, sem mistérios nem conclusões precipitadas. Vamos? Tudo que há no mundo é invenção, pouco do que temos é real, todo resto é inventado para nos pesar a vida. Será que você abdica de todas as convenções para nós pirarmos juntos? Estou planejando um desbunde, cansei das doses homeopáticas de piração. Quero mais, sabe? Um lance na veia. Caetano já foi tão legal e eu ando tão aleatório numa vibe estranha de querer ser entendido sem precisar do esforço de me fazer entender. Não é possível que estrangeirismo seja pra vida toda, né? Espero que passe ou que eu encontre, enfim, você de novo. No fim das contas, apesar de tudo e de todos, dos outros e de mim, eu estou vivo. Muito vivo, enfim. Que dia você vem?

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Domingo Amargo

10898078_10424569_pmQuase três da manhã, fim de noite de domingo, já é segunda-feira e eu querendo achar algum lugar aberto para tomar a saideira e depois ir pra casa. Já cruzei quase a cidade toda a pé, tudo fechado. Choveu bastante algumas horas antes, tá tudo deserto, nem os bichos fazem barulho. Quase três da manhã e eu preciso de só mais uma cerveja para manter a minha onda e dormir tranquilo. Cansado e tranquilo, gosto de dormir assim, é como um transe. Saudade de quando tinham mais inferninhos nessa cidade, mas estão todos encaretando, até a cidade. A loja de conveniência doposto de combustível não vende álcool de madrugada. Que merda. Que inútil. Pego uma água e saio ironizando o atendente que foi escroto, emputecido porque eu só queria beber uma cerveja na rua e não consigo. Quase três da manhã e eu lembro das histórias que minha bisavó contava. Às três da manhã foi a hora em que Judas traiu Jesus, ela dizia, é a melhor hora para se fazer feitiços de morte. Não tenho medo da rua escura, até gosto, luz incomoda meus olhos, a luz branca quase me corta. Quase três da manhã e lembro de um trailer que pode estar aberto. Vou precisar andar mais um tanto, mas agora tanto faz, às três da manhã pouca coisa importa realmente. Tá aberto, ufa! Peço uma cerveja no balcão, já tem gente passando para ir trabalhar. Afasto-me um pouco dali, a luz é clara, procuro uma sombra mais adiante, sento num banco de alvenaria gelado para tomar minha cerveja. Minhas papilas gustativas estão em festa. Cerveja gelada! Uma mulher se aproxima, pede cigarro, mas só tenho isqueiro. Desconfia, me olha meio de lado, pergunta se curto um beck. Pensei que a resposta positiva me traria uma ponta salvadora, que nada, o que ela tem é pó. Senta-se ao meu lado, bate uma carreira, diz que é minha vez, mas nego, não curto a vibe, ela me xinga, nem ligo. Há uma hostilidade no ar que não consigo interpretar e nem desconstruir. Ela pega meu copo e o borra todo de batom. Bebe num gole. Diz que é puta, me chama pra trepar, domingo é mais barato, cem reais por uma hora. Anal maravilhoso, ela se gaba. Eu rio. Não pago por sexo, acho escroto, não me dá tesão. Gosto é da conquista, dinheiro é atalho, objetivo demais para me excitar. Ela levanta bruscamente, parece brava, imagino que deve ter alguma faca ou canivete, mas estou de boa, não consigo sentir medo. Pede dinheiro pra outra cerveja, eu dou. Ela volta, senta-se ao meu lado, já é outra pessoa, agora tão mais doce, parece vulnerável, quer me contar histórias. Entre um gole e outro arruma o sutiã, mexe nos seios, parece querer me provocar. Confere com o olho meu pau. Vejo tudo como se estivesse de fora, mas tô preso num corpo embriagado, com os lábios quase dormentes. Os ouvidos estão atentos, tento não bocejar para que ela não se ofenda, são histórias interessantes. Ela tem clientes mensalistas, todos casados. Um deles curte beijo grego. Sinto um pouco de nojo, mas não demonstro, apenas rio, faço uma pergunta qualquer, ela ignora, continua sua história. Diz que o cara tem mau hálito, então ela prefere nem conversar muito com ele, prefere fazer logo o beijo grego e ir embora. O celular toca, ela sai rebolando e pisando nas poças d’água, quase cai por causa de um paralelepípedo torto. Grita um palavrão e some ao dobrar uma esquina. O dia tá claro, meus olhos ardem, só preciso dormir. Sinto a boca apertar de tão seca. Gosto amargo. Vou acordar de ressaca.

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Mariposa

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É em fim de noite de domingo que a solidão, antes encasulada, cria asas e preenche os cômodos da casa silenciosa. Eu finjo não ter medo quando a solidão vem com suas asas por trás de mim e me causa arrepio com seu sopro frio arrepiando a minha nuca. Ela me sussurra barbaridades existenciais e sinto medo. Calafrios. A solidão é pura nóia. Inventa. Te assombra. Te rodeia. E se você abre guarda, a solidão te come. Por trás, com força e a seco. Na tentativa de escapar, a gente cria atalhos tolos e frívolos. Aumenta o som da TV, coloca uma música inútil pra tocar, vagueia por páginas e mais páginas e quando menos espera, seu corpo está te traindo ao resgatar uma memória dolorida. Ou então você está lá procurando por alguma foto de quem você não mais deveria se importar. Neste ponto a solidão já enfiou a cabecinha. Tudo é risco. Você tenta escapar do pensamento, das memórias afetivas e de tudo mais que ficou pelo caminho, mas é tarde demais. Daí, sem saída, o jeito é relaxar. Deixa entrar e fazer rebuliço. Deixa cansar, desgastar, desidratar. Na segunda-feira o relógio não perdoa, despertador toca cedo, solidão não tem espaço em meio a correria, perde as asas e morre antes do meio-dia.

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Posto

12073140411168771264gas station black.svg.hiEu sorria. Sorria ali parado bem no meio do posto atrapalhando as manobras dos carros que se abasteciam. Sorria indeciso. Não sabia se entrava na loja de conveniência para comprar algum veneno de morte lenta ou se ficava ali, sorrindo indeciso em meio ao movimento dos carros. Sorria por fora porque dentro tudo se rebolia. Estava corroído, caótico, morrendo por dentro. Morria cada vez mais a cada segundo, sentia minhas entranhas vertendo sangue e na minha garganta um nó me tirava o ar. Era um câncer de grito contido, de lágrima petrificada, de loucura domada. Não me movia, parado entre o trânsito eu não me movia porque era naquele metro quadrado que epifanias me assediavam.  Quando a gente abdica da loucura, a demência vem comendo a gente pelas beiradas — me veio feito fagulha. Junto veio medo da demência. Mas não da morte. Aprendi a resignar-me diante do inevitável. Mas quero evitá-la. Entendi que morria, ali, parado e sorridente, estava morrendo. Morria a cada foda mal dada, a cada grito sussurrado, a cada culpa sentida. Morria a cada beijo seco, a cada abraço frouxo, a cada noite não vista. E é difícil não morrer. Da morte não se foge, é impossível. Refiz meus planos de vida em segundos. Pensei que morte bonita não carrega remorso. E se nessa minha tentativa de morrer com leveza alguma droga acelerar o envelhecimento da minha carne, não vai haver remorso, porque os meus sentidos se viciam cada vez mais nos prazeres, como um delírio hedonista de filme lúdico francês. E então eu vou brindar cada vez mais a tudo que é banal, sacralizar as pequenezas mais corriqueiras e profanar tudo que é dito santo. E sorrindo. Sorrindo bobo, parado no meio do posto quase meia-noite atrapalhando o trânsito dos carros.

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Celofane

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Porque ouvir Sérgio Sampaio exige um troço etílico. Cerveja talvez, conhaque com certeza. Às vezes eu peco na mania de legitimar as pessoas pelos artistas que elas ouvem. Não basta conhecer, saber o nome eu sei de muita gente e isso não é nada. Sei até do timbre, sei meia dúzia de músicas e isso não é ouvir. Estou falando é de colocar pra tocar e sofrer junto com o cara ali cantando, saber do acorde dor-delícia, aquele que saiu pelo esforço, auge da angústia. E eu não quero saber se na segunda-feira nossos excessos são maiores, meus pecados não se agravam pelos dias da semana. Encho a cara sábado ou segunda, sem problemas, também sei fuder legal às dez da manhã ou dez da noite, não vai ser um calendário ou relógio a me condicionar ou condenar. Eu tenho medo de parar de beijar na boca. Não estou falando de solidão, nem de fissura ou hiatos na vida afetiva, estou é reclamando que hoje em dia parece que o que mais importa é ver meu pau duro. Eu gosto de beijo na boca. Ereção tenho até quando estou com vontade de mijar, isso não é o mais importante, não tem nada de tão especial assim. Ereção é ordinária. Não, não é papo de brocha, tenho minhas funções todas bem reguladas, só queria mais sutileza, menos furor para que haja mais deleite. Língua roçando na língua, mão rolando pelo corpo, mente longe, os pés fora do chão, carne trêmula de prazer e meu sexo ali, rígido sim, pronto sim, mas usado só quando for a hora, depois de explorados todos os meus sentidos. Sexo é isso, o resto é trepadinha pra gozar antes do miojo ficar pronto. E o que eu quero é mais. Eu gosto quando é mais. Não que uma boa foda rápida não tenha seu valor, há dias que é isso o que mais quero, que é isso o conveniente, mas não é pra sempre, não deve ser a constante. Eu acho que a gente anda perdendo o tino. E essa coisa agora de shows de holograma? Velho, que loucura, que vergonha! Acho meio bizarro o defunto ali no palco, vivo pela tecnologia ainda meio falha. Até brincadeira do copo é mais legal, gira no terreiro é mais vivaz. Mas, penso, deliro, entrar num boteco daqueles de luz baixa que não tem hora pra fechar e dar de cara com Sérgio Sampaio sentado num sofá velho dedilhando em seu violão as notas de Maiúsculo.

“Tenho meus vícios
Vivem dentro de mim esses bichos
São o pai e a mãe dos meus lixos
E às vezes me levam de mal a pior
Pergunto quem
Não sabe disso
Os momentos em que a vida não tem dó

Solto meus bichos
Pelas músicas quando me aflijo
Mas um homem sem esse feitiço
E sem um carinho a que recorrer
Pode matar
Querer correr
Pois perdeu todo sentido de viver”

Bicho, que doideira seria. Sei nem mensurar. Ia correr dali quando amanhecesse, botar meu bloco na rua e pirar de vez. Nem sei mais onde guardei minha loucura, mal sei o que ainda me segura nessa vida de homem direito responsável com os prazos do trabalho e com o horário rígido do emprego que me faz dormir na madrugada, justas horas mais prazerosas de estar acordado. É de madrugada que sou profícuo, na madruga que bem me encaixo. Temperatura, cheiro, clima, energia, papo fluido, riso solto e brisa boa, isso tudo, meu bem, só a madrugada traz. Carrego um monte de saudades. Sei ser mais leve se for madrugada. Não rola angústia e se falo em mágoa é só pra usar como álibi pra mais um copo, mais uma dose, a terceira saideira. Tenho poucas vaidades. Gosto de conhecer artistas antes da fama, dá um orgulho besta, sabe? Eu não vou me culpar, não por isso. Eu quase não tenho remorsos. Nem mesmo quando dou tchau. Precipitadamente eu dou tchau e isso é puro medo. Não agora, não aqui. Eu estou com saudade de ver o mar. Volta Redonda tem céu cinza, no horizonte tem chaminés da CSN e eu até que gosto da poluição que no fim das tardes de verão fazem o céu escurecer colorido, mas saudade eu tenho é do mar. Eu frequento ambientes à meia-luz. Eu sou dos prazeres. Eu me deixo cair em tentação.

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