28

Estive longe. Longe por querer e também por necessidade. Longe do meu eu mais denso, do mundo confuso que por tanto tempo cultivei e hoje se mantém por teimosia em estado de latência em mim. Mas quando a vida parece por demais outra vida que não a minha idealizada, quando todos parecem lobotomizados pagadores de conta, não tenho outra opção e me volto a mim. Flerto com a loucura, encho a cara, planejo fugas reais, penso, penso e penso. Noites inteiras de ideias e planos, poucas horas de sono, olheiras marcando o rosto e um estrangeirismo nítido no sorriso cordial e automático de bom dia aos colegas de trabalho, que em dias como os de agora parecem todos insuportáveis. Gente de mentira vivendo vidas de mentira e cumprindo punições por violarem regras de mentira. Casamentos infelizes compensados com descontrole financeiro, vejo todo dia. Uma tá buscando por todo o tempo alguma forma de autopunição por quebrar as regras que o mundo a impõe. Está todo dia triste comendo aveia pra tentar caber num 38. Parece seguir o Evangelho da Granola, quer converter todos ao seu redor. Porre. Ficou chata. A outra passa o dia fazendo marketing pessoal e do casamento no Facebook. Faz tudo parecer perfeito, tira foto do macarrão que fez na janta, “100 dias felizes”, declarações de amor copiadas de algum site de mensagens mal feito com layout de 2004. Chata. Um dia ficou bêbada no happy hour e soltou que o marido não transa mais com ela. Para que então tanta declaração? Eu não sei me encaixar e nem fingir que acho tudo isso legal. Penso, penso, penso. Planejo fugas reais. Ouço Belchior e Sérgio Sampaio. Encontro respostas e esperanças. Dois loucos. Meus gurus nesses tempos tão hostis. Ainda tem todo o emaranhado político lá de Brasília, da capital e daqui. Querem minha opinião, estou farto e queria estar por fora. Que maravilha deve ser exercitar a indiferença. Conheci uma menina. A gente se admira e ela é bonita. Também leu Caio Fernando Abreu. Sorrimos quando sem perceber eu lancei uma referência e ela entendeu. Fora isso, vivemos n’outra sintonia. Ela está virando gente grande, o salário multiplicou nos últimos anos e agora ela quer ser fina. Jantar em restaurante caro, roupa de grife, viagem internacional, tudo importado. Eu quero ser bagaceiro. Viajar pra Manaus, tomar cerveja nacional, bater perna pesquisando preço e ir pra feira comer pastel. Descobri que amo ir pra feira. Pechinchar o preço da batata-salsa, pedir um pedaço do queijo pra ver se levo ou não, 4 caixas de morangos por 10 reais: felicidade! Fiz 28 e nada mudou do dia pra noite, mas Saturno tá retornando. Passei o ano procrastinando meus estudos de tarô, mas li tudo que encontrei de Manuel Bandeira. Não comentei com ninguém, não houve com quem. Revi meus amores. Dei outros fins a eles. Dormi menos de 4 horas e o relógio já despertou me mandando ir trabalhar. Sento na cama, esfrego os olhos, faço o em-nome-do-pai e peço em oração: “fora Temer, volta Blchior!”

Anúncios
Padrão

Reincidências

Te conheci púbere e te quis de modo muito egoísta, como se fosse possível te guardar numa redoma que preservasse seus ares virginais e toda aquele frescor que preservado na aura de quem ainda é cheia de estreias resguardadas. Não deu. Nem para mim e nem para você. Deliramos nas possibilidades de sermos e expandimo-nos. Os nossos caminhos se distanciaram, se aproximaram, se entrecruzaram, se opuseram e depois se aproximaram novamente e agora eu fico me perguntando em quem nos tornamos e nas tantas curvas que a vida fez. Nossas histórias, quando distantes um do outro, nos impregnaram outros vícios, outros jeitos, outro ritmo e não entendo porque eu ainda busco em ti resquícios de seu outro eu. São todas tentativas frustradas. E não consigo cessar minha busca porque sinto que reencontrá-la é encontrar também parte de mim, macia e ávida de amores, que perdi em alguma curva pretérita. Nessa busca me sobram impasses e saudades de tudo que prometemos ser e viver e pouco a pouco vou percebendo que essa minha mania de deixar tudo em reticências é escolha errante para quem não se agrada em andar em círculos. Antes ter tido coragem de te dar tchau quando para mim bastou. Ou antes ter aceitado suas tempestades como minhas também na esperança de um futuro-incerto-céu-azul. Não sei. Sei pouco e cada vez menos. Que ilusão a nossa achar que o Tempo dará conta de tudo por nós. Não dá. Você é o meu nó. E eu parto desse princípio. Hoje eu entendo quais os nossos papéis nessa história oscilante. Partindo do princípio que somos fugazes e reincidentes, me ajuda a entender: como nos esgotar?

Padrão

Caminhos

Dar sentido à vida, por vezes, torna-se algo maior que a própria vida. Envelhecer é difícil, crescem as cobranças íntimas e também as alheias, crescem os medos porque a idade te tira o direito de errar por imperícia. Todos esperam algo de ti. Você espera algo de ti. E em meio a tantas expectativas é preciso ser você, encontrar sentido no seu cotidiano e buscar lugar. Já disse e repito como mantra que a vida é, em essência, uma busca por acolhimento, uma vontade urgente de livrar-se do estrangeirismo que assombra todo aquele que um dia escolheu sair da caverna. É foda. Não tem caminho de volta para nada do que conhecemos e desconstruímos durante nossa jornada, e à medida que afastamo-nos da caverna, tornamo-nos mais estrangeiros nesse mundo, mais distantes da maioria e aí, sem ter como voltar, haja culhão para sustentar seus desejos, vontades e posicionamentos dissidentes! Cientes de que toda escolha é também uma (ou muitas) renúncia, aceitamos com resignação quando o caminho se torna difícil, mas a aceitação não torna a caminhada mais fácil, sequer menos dolorosa. Dá câimbra, fadiga todos os músculos e esgota a mente. Nesses dias, meu amigo, qualquer sorriso é abrigo e todo abraço é porto. Buscar autonomia e autoconhecimento não nos livra da vulnerabilidade, o que muda é o modo como lidamos diante das nossas fraquezas. A melancolia e o tédio é espaço necessário para o crescimento. Busco meu tédio e quero cultivá-lo até conseguir levar a última instância o aprimoramento do meu Eu. Quero espaço, quero vazio e madrugadas inteiras de imersão. Também quero acolhimento sem farpas, entendimento sem julgamento de valor e lealdade desinteressada. Às vezes temo estar em processo de desaprendimento de tudo nesse mundo, perdido na velocidade fria das relações rasas, daí eu deixo em latência toda a densidade para pegar fôlego e prosseguir. Mas uma hora tudo vem à tona. Uma hora, sem aviso prévio, a gente se derrama. E o sentido, a definição cognitiva, pouco importa. Vale de prova as marcas que a vida nos imprime. Ora com força, ora arrastada, a vida se expande. Carcará desgarrado nunca mais volta pro ninho.

Padrão

Vivo

Baby, I’m alive, vivo muito vivo feel the sound of music banging in my belly. Know that one day I must die. I’m alive!”

Eu te vejo daqui com a sensação pretensiosa que eu, de longe, te enxergo melhor que aqueles que te rondam. Você aí, arisca quando te ofereço minhas lentes, bem sabe que é verdade. Assim como também sei e tenho que engolir que você sabe como me desnudar, meu maior incômodo no mundo. E penso agora, só nos conhecemos bem porque somos por demais parecidos. Nossa treta começa na nossa vulnerabilidade cutucada um pelo outro, mas vamos deixar pra trás esse vício e sermos amenos um com outro. Seja boa comigo? Vamos nos desligar desse mundo de competições, ordens e regras, vamos deixar tudo fluir? Sem adornos, sem terceiros, sem mistérios nem conclusões precipitadas. Vamos? Tudo que há no mundo é invenção, pouco do que temos é real, todo resto é inventado para nos pesar a vida. Será que você abdica de todas as convenções para nós pirarmos juntos? Estou planejando um desbunde, cansei das doses homeopáticas de piração. Quero mais, sabe? Um lance na veia. Caetano já foi tão legal e eu ando tão aleatório numa vibe estranha de querer ser entendido sem precisar do esforço de me fazer entender. Não é possível que estrangeirismo seja pra vida toda, né? Espero que passe ou que eu encontre, enfim, você de novo. No fim das contas, apesar de tudo e de todos, dos outros e de mim, eu estou vivo. Muito vivo, enfim. Que dia você vem?

Padrão

Pontuação

ciclo_vida_folha

Acertei com o acaso o dia e o jeito certo de te encontrar. Vou fingir despretensão, que é o que faço de melhor. Vou falar pouco de mim e perguntar bastante de você, que é o que faço bem. E vou notar cada um dos seus detalhes. Seus tons, suas linhas, suas curvas e suas cores. Como um aluno que aprende uma nova matéria fascinado pelas descobertas, porque o que excita é descobrir. – E assim nasce mais um encantamento, essa coisa que me move e me rebuli, mas que eu sou hesitante em chamar de amor. Não por falta de fé na perenidade do sentimento, mas porque encantamento me parece ser algo tão mais livre e condizente com o estado em que a gente ficar. O encantamento é embelezador, realça as cores do mundo e floreia onde só havia concreto. Se der, por sorte e outros princípios involuntários, esse encantamento vira amor. Amor suporta o peso do cotidiano e tem lá suas características controversas. Encantamento não, porque encantamento corre solto. Encantamento é aquele que flui. E minha reza a Oxum é para que tudo entre nós flua como as águas de um rio caudaloso. E então eu vou te cultivar e invadir até o dia que isso chegue num fim, que pode ser reticente ou fatal. O fim é quando a gente se esquece de como descobrir. Depois a gente discute que papel coube a quem, depois eu espero o tempo abrandando nossos incômodos e quem sabe há outra aproximação? Um último beijo, outra briga, asperezas e silêncios. Cada um pro seu lado, clamando à vida por um outro caso, outro encantamento, outro amor. Um novo castelo para outras expectativas.

Padrão