Beijo

Eu lembro como se tivesse sido ontem à noite. Eu te querendo toda e sem saber como agir, escolhendo a canastrice como saída pra minha inabilidade com essas coisas do interesse romântico. Cantei uma música ao pé do seu ouvido, meu braço em volta do seu pescoço não te deixava muitas alternativas. Foi aí que seu sorriso se abriu perto do meu. Bem perto do meu, quase que não pude ver, mas sentia as maçãs do seu rosto se suspendendo perto das maças do meu rosto que também se contraíam e os seus dentes bem perto dos meus – mergulhei no teu beijo.

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Que nome tem?

Apagava os seus rastros por onde passava, como quem pudesse começar uma nova vida a qualquer momento. Ela não tinha apegos e fazia questão de não ter história. Falava muito sobre tudo, falava bem, possuía argumentos bonitos como se não tivesse vivido as mais terríveis decepções. Não falava de si. Ou se falava, era muito pouco, sempre de maneira dispersa e evasiva, mas igualmente convincente. Um dia a encontrei onde eu não esperava e quis lhe dar um abraço, sorrir e dizer coisas bonitas, mas não pude. Ela não me reconheceu, não quis me reconhecer, não me esperava ali enxergando-a cheia dos seus adornos ou alguma coisa assim. Talvez tudo isso junto. Ela não me reconheceu. Eu entendi. O contexto e a história entre mim e ela era outro e eu não fazia parte daquela história que ela vivia ali. Eu a entendi e sorri mesmo assim, meio que de longe, da maneira mais discreta possível. Ninguém entendeu eu tentar intimidade com aquela que me esnobou, mas eu entendi. Eu rememorei e desejei profundamente reviver o fascínio de antes. Tolice minha, eu sei. Depois do dia fatídico eu nunca mais a vi, e se vi foi como se não tivesse visto, respeitei sua decisão. Sou ouvido de muitas histórias, mas essa me foi contada sem uma palavra sequer, o olhar evasivo me disse tudo naquele dia. Só quem nos vira perdidos e sem destino certo naquela noite sabe do amor inato que descobrimos ali. Uma felicidade dilacerante nos atingia como quando crianças descobrindo o primeiro gozo. Com ela tudo me pareceu ser estreia. Que nome tem?

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Coisa mais bonita

Quero mais de três mil dias pra ficar em silêncio deitado ao seu lado apenas concentrado na sua presença. Desejo tão fortemente sua presença aqui comigo que é quase palpável a lembrança da tua pele morena, lisa e quente. Tem coisa mais bonita a dedicação de mapear cada centímetro do corpo de alguém? Sei tuas pintas, sei teus poros, sei teus pelos – mapeei os caminhos do teu prazer. Gosto de gostar de você e se te escrevo é mesmo na intenção de deixar tudo assim escancarado. Os dias estão estranhos, densos e coisas e tal. Penso que, mais que nunca, é agora a hora da gente fazer exatamente aquilo que nos faz bem, cuidar de quem a gente gosta e também de nós mesmos. Dizer que gosta, que ama, que sente falta, que a saudade está presente e tudo mais. A estação do desprendimento já passou. Vamos nos prender sim, mas só a quem e ao que nos faz bem. Você me faz bem. Eu ainda engatinho nesse lance de ser tão claro e escancarado, então falar de casamento é coisa lá pra frente, mas confesso que já pensei na nossa casa perto de algum mar pacato e com rede na varanda, uma vitrola na sala e nossos discos decorando a parede, uns tantos em cima dos móveis e outro rodando na bandeja Mariana Aydar. Nós dois juntinhos inventando nosso mundo, criando memórias e ancorando sem medo toda a vida na nossa relação. Você quer? Você aceita?

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Reincidências

Te conheci púbere e te quis de modo muito egoísta, como se fosse possível te guardar numa redoma que preservasse seus ares virginais e toda aquele frescor que preservado na aura de quem ainda é cheia de estreias resguardadas. Não deu. Nem para mim e nem para você. Deliramos nas possibilidades de sermos e expandimo-nos. Os nossos caminhos se distanciaram, se aproximaram, se entrecruzaram, se opuseram e depois se aproximaram novamente e agora eu fico me perguntando em quem nos tornamos e nas tantas curvas que a vida fez. Nossas histórias, quando distantes um do outro, nos impregnaram outros vícios, outros jeitos, outro ritmo e não entendo porque eu ainda busco em ti resquícios de seu outro eu. São todas tentativas frustradas. E não consigo cessar minha busca porque sinto que reencontrá-la é encontrar também parte de mim, macia e ávida de amores, que perdi em alguma curva pretérita. Nessa busca me sobram impasses e saudades de tudo que prometemos ser e viver e pouco a pouco vou percebendo que essa minha mania de deixar tudo em reticências é escolha errante para quem não se agrada em andar em círculos. Antes ter tido coragem de te dar tchau quando para mim bastou. Ou antes ter aceitado suas tempestades como minhas também na esperança de um futuro-incerto-céu-azul. Não sei. Sei pouco e cada vez menos. Que ilusão a nossa achar que o Tempo dará conta de tudo por nós. Não dá. Você é o meu nó. E eu parto desse princípio. Hoje eu entendo quais os nossos papéis nessa história oscilante. Partindo do princípio que somos fugazes e reincidentes, me ajuda a entender: como nos esgotar?

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O traço de Oyá

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Sofro de um mal que percorre os séculos e todas as letras em todos os idiomas. Sofro de incompletudes. Manoel de Barros também tinha suas incompletudes e descreveu melhor que ninguém o que é vazio. E soube também preencher vazio com canto de passarinho. Mas eu infelizmente sou urbano. Cercado de concreto, muros, regras e modos. Fico com vontade de um mato, um canto, outra vida, outros valores. Casa no Campo, tamanho grande, tijolinhos de barro e tapeçaria artesanal e coisas assim. Caneca esmaltada até já tenho em casa. Devaneio em meus pensamentos montando lares distintos, ora longe, ora perto, ora aqui mesmo. Às vezes dez anos à frente, outras vezes quatro anos atrás. Dois mil e onze foi um ano bonito – recordo. Incompletude não tem cura – concluo. Aí por onde andei, em cada praça, cada rua, cada canto e cada curva eu deixei pedaços meus em troca de saudades. A memória tornou-se morada dos cheiros, dos gostos e das formas: de lugares, de atmosferas, horizontes e pessoas. Descobri afeto em outras latitudes e nunca mais consegui voltar totalmente para onde resido. Vou me largando por aí, involuntariamente entregando meus eus e não sei se é dádiva ou danação essa coisa de carregar saudades e vontades. Sou estrangeiro em todos os lugares, mas sei fazer lar em olhares recíprocos, sorrisos abertos e almas reluzentes. Não sei renunciar à liberdade de descobrir motivos para acumular outras saudades e agravar minha incompletude.

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Casa VII

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Não sei se o que sinto é alegria, ciúmes ou o quê. Sinto é estranheza. Estranheza que é até boa e que me preenche, que me rabisca um sorriso no rosto quando me apareces assim reluzente, cara lavada e fala mansa, me contando dos seus novos casos e das novidades aí noutro hemisfério. E me dá um calafrio misto de tesão quando declara saudade do nosso amor, quando por vieses cândidos rememora nossas transas. Eu provoco, você retribui, expandimos a imaginação, selamos um futuro possível de um reencontro catártico e quente dos nossos corpos. Preciso revisitar cada centímetro da tua pele morena. Preciso novamente dos teus avanços inesperados, dos teus sussurros, dos teus mistérios e de toda a reciprocidade que nos envolve: sintonia. Que os astros e todas as deidades nos ouçam e façam valer aquilo que nossos mapas astrais nos revelaram: seremos pra sempre, compartilhamos Saturno na casa VII.

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Pontuação

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Acertei com o acaso o dia e o jeito certo de te encontrar. Vou fingir despretensão, que é o que faço de melhor. Vou falar pouco de mim e perguntar bastante de você, que é o que faço bem. E vou notar cada um dos seus detalhes. Seus tons, suas linhas, suas curvas e suas cores. Como um aluno que aprende uma nova matéria fascinado pelas descobertas, porque o que excita é descobrir. – E assim nasce mais um encantamento, essa coisa que me move e me rebuli, mas que eu sou hesitante em chamar de amor. Não por falta de fé na perenidade do sentimento, mas porque encantamento me parece ser algo tão mais livre e condizente com o estado em que a gente ficar. O encantamento é embelezador, realça as cores do mundo e floreia onde só havia concreto. Se der, por sorte e outros princípios involuntários, esse encantamento vira amor. Amor suporta o peso do cotidiano e tem lá suas características controversas. Encantamento não, porque encantamento corre solto. Encantamento é aquele que flui. E minha reza a Oxum é para que tudo entre nós flua como as águas de um rio caudaloso. E então eu vou te cultivar e invadir até o dia que isso chegue num fim, que pode ser reticente ou fatal. O fim é quando a gente se esquece de como descobrir. Depois a gente discute que papel coube a quem, depois eu espero o tempo abrandando nossos incômodos e quem sabe há outra aproximação? Um último beijo, outra briga, asperezas e silêncios. Cada um pro seu lado, clamando à vida por um outro caso, outro encantamento, outro amor. Um novo castelo para outras expectativas.

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