Pássaros feridos

Meu coração é ninho de pássaros feridos. Meu colo acalanta quem chega e em troca não tem coragem de pedir permanências. Nunca foi meu querer essa efemeridade do amor, mas se até a rocha se molda com a força das águas e do vento, que dirá o nosso amar.

Quando despertamos nossas potencialidades românticas naquele afã pulsante de querer viver uma vida inteira em alguns segundos, não nos damos conta que o coração é cousa frouxa. Até que apanha. Aí sim começa a tomar forma, ora parece pequeninho de tão apertado, ora parece imenso de tanto amor, maior ainda quando se transborda em lágrimas – de felicidade ou de tristeza, de raiva ou alegria.

Eu cresci mais do lado escuro do amor. Término, despedida, desencontro, desamor. Traição, diferença, desinteresse, decepção. Esquivei-me dos espinhos para não me transformar no amargo que rejeito e faço máxima questão de rejeitar, resguardando o que há de macio para quem ainda há de vir.

Vieram. Carinho, cafuné, candura, cosquinha. Mas também rebuliço, redenção, redemoinho, reminiscências. Eu sempre quis tudo por inteiro, não calava parte nenhuma, preferia o posto, revirava, revivia, reiterava e reconstruía. Até chegar o dia do tchau, até mais, até breve. Uma vez – me lembro agora – foi só silêncio, pior que dizer adeus. Por tantas vezes eu me acovardei e, em vez de ponto final, preferia as reticências. Noutras eu me adiantei e poupei qualquer drama, saí primeiro como que se tivesse desprendimento.

Independente da circunstância, eu nunca lutei pelo amor. Porque só entendo o amor se for livre. Fluido, dinâmico, natural, arrebatador. Sei que não se mede o amor em tempo, mas se eu pudesse ter um pedido, apenas um, pediria que ficasse um pouquinho mais.

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Beijo

Eu lembro como se tivesse sido ontem à noite. Eu te querendo toda e sem saber como agir, escolhendo a canastrice como saída pra minha inabilidade com essas coisas do interesse romântico. Cantei uma música ao pé do seu ouvido, meu braço em volta do seu pescoço não te deixava muitas alternativas. Foi aí que seu sorriso se abriu perto do meu. Bem perto do meu, quase que não pude ver, mas sentia as maçãs do seu rosto se suspendendo perto das maças do meu rosto que também se contraíam e os seus dentes bem perto dos meus – mergulhei no teu beijo.

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Que nome tem?

Apagava os seus rastros por onde passava, como quem pudesse começar uma nova vida a qualquer momento. Ela não tinha apegos e fazia questão de não ter história. Falava muito sobre tudo, falava bem, possuía argumentos bonitos como se não tivesse vivido as mais terríveis decepções. Não falava de si. Ou se falava, era muito pouco, sempre de maneira dispersa e evasiva, mas igualmente convincente. Um dia a encontrei onde eu não esperava e quis lhe dar um abraço, sorrir e dizer coisas bonitas, mas não pude. Ela não me reconheceu, não quis me reconhecer, não me esperava ali enxergando-a cheia dos seus adornos ou alguma coisa assim. Talvez tudo isso junto. Ela não me reconheceu. Eu entendi. O contexto e a história entre mim e ela era outro e eu não fazia parte daquela história que ela vivia ali. Eu a entendi e sorri mesmo assim, meio que de longe, da maneira mais discreta possível. Ninguém entendeu eu tentar intimidade com aquela que me esnobou, mas eu entendi. Eu rememorei e desejei profundamente reviver o fascínio de antes. Tolice minha, eu sei. Depois do dia fatídico eu nunca mais a vi, e se vi foi como se não tivesse visto, respeitei sua decisão. Sou ouvido de muitas histórias, mas essa me foi contada sem uma palavra sequer, o olhar evasivo me disse tudo naquele dia. Só quem nos vira perdidos e sem destino certo naquela noite sabe do amor inato que descobrimos ali. Uma felicidade dilacerante nos atingia como quando crianças descobrindo o primeiro gozo. Com ela tudo me pareceu ser estreia. Que nome tem?

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Coisa mais bonita

Quero mais de três mil dias pra ficar em silêncio deitado ao seu lado apenas concentrado na sua presença. Desejo tão fortemente sua presença aqui comigo que é quase palpável a lembrança da tua pele morena, lisa e quente. Tem coisa mais bonita a dedicação de mapear cada centímetro do corpo de alguém? Sei tuas pintas, sei teus poros, sei teus pelos – mapeei os caminhos do teu prazer. Gosto de gostar de você e se te escrevo é mesmo na intenção de deixar tudo assim escancarado. Os dias estão estranhos, densos e coisas e tal. Penso que, mais que nunca, é agora a hora da gente fazer exatamente aquilo que nos faz bem, cuidar de quem a gente gosta e também de nós mesmos. Dizer que gosta, que ama, que sente falta, que a saudade está presente e tudo mais. A estação do desprendimento já passou. Vamos nos prender sim, mas só a quem e ao que nos faz bem. Você me faz bem. Eu ainda engatinho nesse lance de ser tão claro e escancarado, então falar de casamento é coisa lá pra frente, mas confesso que já pensei na nossa casa perto de algum mar pacato e com rede na varanda, uma vitrola na sala e nossos discos decorando a parede, uns tantos em cima dos móveis e outro rodando na bandeja Mariana Aydar. Nós dois juntinhos inventando nosso mundo, criando memórias e ancorando sem medo toda a vida na nossa relação. Você quer? Você aceita?

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28

Estive longe. Longe por querer e também por necessidade. Longe do meu eu mais denso, do mundo confuso que por tanto tempo cultivei e hoje se mantém por teimosia em estado de latência em mim. Mas quando a vida parece por demais outra vida que não a minha idealizada, quando todos parecem lobotomizados pagadores de conta, não tenho outra opção e me volto a mim. Flerto com a loucura, encho a cara, planejo fugas reais, penso, penso e penso. Noites inteiras de ideias e planos, poucas horas de sono, olheiras marcando o rosto e um estrangeirismo nítido no sorriso cordial e automático de bom dia aos colegas de trabalho, que em dias como os de agora parecem todos insuportáveis. Gente de mentira vivendo vidas de mentira e cumprindo punições por violarem regras de mentira. Casamentos infelizes compensados com descontrole financeiro, vejo todo dia. Uma tá buscando por todo o tempo alguma forma de autopunição por quebrar as regras que o mundo a impõe. Está todo dia triste comendo aveia pra tentar caber num 38. Parece seguir o Evangelho da Granola, quer converter todos ao seu redor. Porre. Ficou chata. A outra passa o dia fazendo marketing pessoal e do casamento no Facebook. Faz tudo parecer perfeito, tira foto do macarrão que fez na janta, “100 dias felizes”, declarações de amor copiadas de algum site de mensagens mal feito com layout de 2004. Chata. Um dia ficou bêbada no happy hour e soltou que o marido não transa mais com ela. Para que então tanta declaração? Eu não sei me encaixar e nem fingir que acho tudo isso legal. Penso, penso, penso. Planejo fugas reais. Ouço Belchior e Sérgio Sampaio. Encontro respostas e esperanças. Dois loucos. Meus gurus nesses tempos tão hostis. Ainda tem todo o emaranhado político lá de Brasília, da capital e daqui. Querem minha opinião, estou farto e queria estar por fora. Que maravilha deve ser exercitar a indiferença. Conheci uma menina. A gente se admira e ela é bonita. Também leu Caio Fernando Abreu. Sorrimos quando sem perceber eu lancei uma referência e ela entendeu. Fora isso, vivemos n’outra sintonia. Ela está virando gente grande, o salário multiplicou nos últimos anos e agora ela quer ser fina. Jantar em restaurante caro, roupa de grife, viagem internacional, tudo importado. Eu quero ser bagaceiro. Viajar pra Manaus, tomar cerveja nacional, bater perna pesquisando preço e ir pra feira comer pastel. Descobri que amo ir pra feira. Pechinchar o preço da batata-salsa, pedir um pedaço do queijo pra ver se levo ou não, 4 caixas de morangos por 10 reais: felicidade! Fiz 28 e nada mudou do dia pra noite, mas Saturno tá retornando. Passei o ano procrastinando meus estudos de tarô, mas li tudo que encontrei de Manuel Bandeira. Não comentei com ninguém, não houve com quem. Revi meus amores. Dei outros fins a eles. Dormi menos de 4 horas e o relógio já despertou me mandando ir trabalhar. Sento na cama, esfrego os olhos, faço o em-nome-do-pai e peço em oração: “fora Temer, volta Blchior!”

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Reincidências

Te conheci púbere e te quis de modo muito egoísta, como se fosse possível te guardar numa redoma que preservasse seus ares virginais e toda aquele frescor que preservado na aura de quem ainda é cheia de estreias resguardadas. Não deu. Nem para mim e nem para você. Deliramos nas possibilidades de sermos e expandimo-nos. Os nossos caminhos se distanciaram, se aproximaram, se entrecruzaram, se opuseram e depois se aproximaram novamente e agora eu fico me perguntando em quem nos tornamos e nas tantas curvas que a vida fez. Nossas histórias, quando distantes um do outro, nos impregnaram outros vícios, outros jeitos, outro ritmo e não entendo porque eu ainda busco em ti resquícios de seu outro eu. São todas tentativas frustradas. E não consigo cessar minha busca porque sinto que reencontrá-la é encontrar também parte de mim, macia e ávida de amores, que perdi em alguma curva pretérita. Nessa busca me sobram impasses e saudades de tudo que prometemos ser e viver e pouco a pouco vou percebendo que essa minha mania de deixar tudo em reticências é escolha errante para quem não se agrada em andar em círculos. Antes ter tido coragem de te dar tchau quando para mim bastou. Ou antes ter aceitado suas tempestades como minhas também na esperança de um futuro-incerto-céu-azul. Não sei. Sei pouco e cada vez menos. Que ilusão a nossa achar que o Tempo dará conta de tudo por nós. Não dá. Você é o meu nó. E eu parto desse princípio. Hoje eu entendo quais os nossos papéis nessa história oscilante. Partindo do princípio que somos fugazes e reincidentes, me ajuda a entender: como nos esgotar?

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Clichê de Adeus

Eu queria de novo aqui aquele encantamento de quando te conheci e enxerguei na sua íris verde toda a imensidão do mar. Não encontro. Eu não te culpo. Eu não me culpo. Não sei o que há. Sinceramente não sei. Saiba que todo esse imbróglio dói em mim também. Sem essa de querer competir quem está mais fodido no fim das contas, os fins não são doces para ninguém. “Que um dia possamos ser bons amigos!” – o discurso dos canalhas. Eu aprendi a partir e não sei insistir quando não quero mais, dispenso todo “mas” para ser fiel aos meus sentimentos. Desconforto não é coisa com a qual pretendo um dia me habituar. E daqui pra frente eu espero que saibamos abrir a porta para outros amores e que todo peso seja enterrado antes da chegada da próxima estação. Diz o ditado que desamor com amor se cura. Por “amor”, entenda-se: em todas as formas, possibilidades e configurações. Por agora, o que me cura é o meu amor próprio. Eu digo adeus como um sinônimo de liberdade.

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