Caminhos

Dar sentido à vida, por vezes, torna-se algo maior que a própria vida. Envelhecer é difícil, crescem as cobranças íntimas e também as alheias, crescem os medos porque a idade te tira o direito de errar por imperícia. Todos esperam algo de ti. Você espera algo de ti. E em meio a tantas expectativas é preciso ser você, encontrar sentido no seu cotidiano e buscar lugar. Já disse e repito como mantra que a vida é, em essência, uma busca por acolhimento, uma vontade urgente de livrar-se do estrangeirismo que assombra todo aquele que um dia escolheu sair da caverna. É foda. Não tem caminho de volta para nada do que conhecemos e desconstruímos durante nossa jornada, e à medida que afastamo-nos da caverna, tornamo-nos mais estrangeiros nesse mundo, mais distantes da maioria e aí, sem ter como voltar, haja culhão para sustentar seus desejos, vontades e posicionamentos dissidentes! Cientes de que toda escolha é também uma (ou muitas) renúncia, aceitamos com resignação quando o caminho se torna difícil, mas a aceitação não torna a caminhada mais fácil, sequer menos dolorosa. Dá câimbra, fadiga todos os músculos e esgota a mente. Nesses dias, meu amigo, qualquer sorriso é abrigo e todo abraço é porto. Buscar autonomia e autoconhecimento não nos livra da vulnerabilidade, o que muda é o modo como lidamos diante das nossas fraquezas. A melancolia e o tédio é espaço necessário para o crescimento. Busco meu tédio e quero cultivá-lo até conseguir levar a última instância o aprimoramento do meu Eu. Quero espaço, quero vazio e madrugadas inteiras de imersão. Também quero acolhimento sem farpas, entendimento sem julgamento de valor e lealdade desinteressada. Às vezes temo estar em processo de desaprendimento de tudo nesse mundo, perdido na velocidade fria das relações rasas, daí eu deixo em latência toda a densidade para pegar fôlego e prosseguir. Mas uma hora tudo vem à tona. Uma hora, sem aviso prévio, a gente se derrama. E o sentido, a definição cognitiva, pouco importa. Vale de prova as marcas que a vida nos imprime. Ora com força, ora arrastada, a vida se expande. Carcará desgarrado nunca mais volta pro ninho.

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Obituário

Engasguei com palavra presa na garganta atrapalhando a passagem do ar. Palavra velha criou bolor no meu estômago e atrapalha minha digestão de tudo que como, de todos que bebo e também do que sinto. Engravidei de distração: a política, as novas músicas, a nova novela, a moça do tempo, o ajuste fiscal, todas as novas regras dessa nossa velha vida, os prazos, mil notícias por minuto e os livros abandonados na estante. Longe, distraído, amortecido e desligado, esqueci do meu umbigo. E foi hoje no banho que voltei a notá-lo: estufado, feio e deformado. Hérnia. Palavra sem saída. E agora tudo que tenho é palavra mal formada retirada num aborto provocado antes que vire pedra ou coisa pior: mágoa. Que me desculpem os bons adestradores da linguagem, mas serei medíocre, brega, piegas, pleonástico e talvez até mórbido, porque o que agora me pede passagem é só palavra carpideira lamuriando a própria morte. O que virá a seguir são relatos de vida pretérita aleatoriamente arranjados, assim como a vida, nunca linear.

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O traço de Oyá

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Sofro de um mal que percorre os séculos e todas as letras em todos os idiomas. Sofro de incompletudes. Manoel de Barros também tinha suas incompletudes e descreveu melhor que ninguém o que é vazio. E soube também preencher vazio com canto de passarinho. Mas eu infelizmente sou urbano. Cercado de concreto, muros, regras e modos. Fico com vontade de um mato, um canto, outra vida, outros valores. Casa no Campo, tamanho grande, tijolinhos de barro e tapeçaria artesanal e coisas assim. Caneca esmaltada até já tenho em casa. Devaneio em meus pensamentos montando lares distintos, ora longe, ora perto, ora aqui mesmo. Às vezes dez anos à frente, outras vezes quatro anos atrás. Dois mil e onze foi um ano bonito – recordo. Incompletude não tem cura – concluo. Aí por onde andei, em cada praça, cada rua, cada canto e cada curva eu deixei pedaços meus em troca de saudades. A memória tornou-se morada dos cheiros, dos gostos e das formas: de lugares, de atmosferas, horizontes e pessoas. Descobri afeto em outras latitudes e nunca mais consegui voltar totalmente para onde resido. Vou me largando por aí, involuntariamente entregando meus eus e não sei se é dádiva ou danação essa coisa de carregar saudades e vontades. Sou estrangeiro em todos os lugares, mas sei fazer lar em olhares recíprocos, sorrisos abertos e almas reluzentes. Não sei renunciar à liberdade de descobrir motivos para acumular outras saudades e agravar minha incompletude.

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Mágoa de estimação

tumblr_n3sk79yghV1qfhbsvo1_1280Estamos vivendo em tempos difíceis. Por todos os aspectos, esses são tempos difíceis. O Congresso mais conservador dos últimos anos, a classe média reacionária, a gourmetização do cafézinho, o preço da cerveja, o pau de selfie, a selfie… acho tudo isso cansativo e tudo isso é muito difícil. Mas dentre as maiores dificuldades encontradas nesse cenário caótico, está a negação a mágoa. Gente, se liga, guardar mágoa é lindo. Não compre cachorros ou gatos, é escroto. Não invente de ter aquário em casa, dá muito trabalho. Cultive suas mágoas que a vantagem é bem maior. Vou listar.

Eu acho que cultivar uma mágoa faz da gente mais humano. Se não fossem pelas mágoas que cultivo, jamais entenderia um álbum da Simone e nem de nenhuma outra cantora de MPB. Se não fossem as mágoas, não teria aprendido a gostar de samba e nem de Gonzaguinha. A mágoa tem o poder de nos unir e isso não pode ser esquecido. Sem essa de que todo mundo dá volta por cima com beijinho no ombro e coisas do tipo, vamos assumir o rancor e cultivá-lo.

Quem cultiva mágoa cresce junto com ela. Mas não pode ser um rancor mesquinho, que isso te puxa pra baixo e causa câncer. Falo da mágoa bem estruturado, de porquês bem definidos e argumentos eficazes. Mágoa que a gente dá jeito com volta por cima, que espera o momento certo para se sentir vingada, rancores edificantes, esses sim, verdadeiros diamantes.

O rancor tem o incrível poder de nos ensinar a ser menos mimados, e por isso, também menos melindrosos. Quem aprendeu a guardar um rancor bem guardado não te enche o saco com lamentação, não vai te cobrar coisas pequenas que dizem respeito à sua individualidade. Portanto, afirmo também que o rancor nos faz mais autônomos. Quem tem lá a sua coleção de rancores, sabe interromper ciclos viciosos e não vai entrar pela milésima vez numa relação amorosa que todo mundo vê que vai ser fodida, porque não quer novos rancores lhe abarrotando o peito.

Por fim, o rancor nos leva a um conhecimento mais íntimo e profundo de nós mesmos. Rancor é lindo e está aí para facilitar nossas relações interpessoais. É um investimento a longo prazo, claro. De mágoa em mágoa a gente faz um rancor lindo.

– Mas desfaça-se dele a cada roda de samba, a cada descida até o chão na hora do funk. Antídoto de rancor é sempre catarse.

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NATUREZA

tumblr_n8z130nKli1t0jj16o1_1280Pedra é coisa aguda
Hermética
Estática
Seca

Pedra é coisa una
Ainda que porosa
Ainda que solúvel
Pedra é coisa pétrea

Não areia
Que areia é coisa múltipla
Que outrora pedra
Agora se afina com o tempo

Areia é quase vidro
Ou até cristal
Que se há de ter cuidados
Senão te escorre entre os dedos
Senão te esfola a pele

Sou areia, às vezes pedra
Mas sobretudo areia
Daquelas bem finas
Encontradas nas praias mais antigas
Pequenas partículas
Fruto da força das ondas
Ora calmas
Ora revoltas
E que nunca se junta
E que só sabe ser solta

(Porque areia é onde Xangô se encontra com Iemanjá)

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Canhoto

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Meu desejo é torto. Livre e torto, bem como acho que deve ser. Desde quando entendi o que era desejo que percebi o que depois eu soube que se denominava peculiaridade. Gosto tanto dos dois dentes tortos da Carmem. Gosto tanto que cheguei, a certa altura de minha infância, ter também aqueles dois caninos pontiagudos exuberantes e levemente projetados para frente. Por causa deles sempre vi Carmem como felina voluptuosa, a mais distinta dentre as três irmãs. Quando desconstruí a imagem de Carmem como mulher para mim, fiquei meio carente de um defeito cativante até encontrar a cicatriz no braço direito de Laura.

Laura tinha a minha idade, muito diferente de Carmem, vinte quase trinta anos mais vivente que eu. Laura tinha a marca de catorze pontos no braço direito, diz ter se cortado com a porcelana do vaso sanitário que quebrou com ela em pé em cima dele. Lindos e hipnotizantes catorze pontos que me enfeitiçavam e atraíam-me com a intensidade de um ímã. Eu gostava de deslizar os meus dedos sobre aqueles tracinhos nos braços de Laura, que no princípio muito reclamava, mas depois se acostumou e suspeito ter até passado a gostar, mas isso nunca confessou.

Só não pude deixar de perceber e expor a ela minha percepção que depois de mim as blusas de manga longa já não eram maioria em seu guarda-roupa.  E eu achava ainda mais bonito ver Laura mais livre daquele incômodo bobo. Depois de Laura eu me encantei por uma gagueira. Não era nada grave, juro. Era um charme algumas palavras travarem na boca, e eu encontrava ali um intervalo perfeito para um beijo, então a boca me sorria de volta e a palavra antes travada saía agora rodopiante pelo ar em perfeita dicção. Nada me enternecia tanto quanto aquelas palavras ditas com esforço, mas que soavam com leveza e reverberavam em minha carne me despertando emoção.

No inverno eu perdi horas incontáveis com algumas pintas. Muitas pintas. A maioria se concentrava nas costas, em uma noite contabilizei cento e vinte e seis. Lindas, variadas, castanhas pintas que me deixavam absorto naquele corpo alvo. Comecei a nomear aquelas belezuras, algumas eram gêmeas, e tinha também as três marias saindo do ombro e subindo para o pescoço, área onde eu me dedicava por mais tempo e várias vezes me excedi e deixei marcas sobre elas. Ali o gosto era diferente, ali eu não entendia o que me dizia o calendário e nem o relógio. Desejei fazer morada entre as três marias e o cruzeiro do sul. Naquela região tudo era constelação. Mesmo o inverno nos exigindo roupas brutas, eu insistia em desnudá-la para mais uma vez percorrer os meus dedos numa leitura em braile sobre aquelas miúdas. Eu as amava!

No verão seguinte eu avistei olhos que me levantaram suspeita de portar algum tique. Piscadas em excesso, como quando estamos com sono. Eu quis logo! Segui sempre nessas ditas peculiaridades, casos se repetiram, paixões me arderam e os detalhes tortos sempre se fizeram presentes no meu querer. Não é fetiche, já me preocupei que fosse e li uma dúzia de textos, li Freud e também me aprofundei nos conhecimentos de dona Regina. Não é fetiche, mas também não sei explicar. Às vezes suspeito que seja por eu ser canhoto. Canhoto é sinistro, podem pesquisar. Eu demorei muitos anos para conseguir usar um abridor de latas com eficiência porque eu sou canhoto, não dá pra mudar.

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Posto

12073140411168771264gas station black.svg.hiEu sorria. Sorria ali parado bem no meio do posto atrapalhando as manobras dos carros que se abasteciam. Sorria indeciso. Não sabia se entrava na loja de conveniência para comprar algum veneno de morte lenta ou se ficava ali, sorrindo indeciso em meio ao movimento dos carros. Sorria por fora porque dentro tudo se rebolia. Estava corroído, caótico, morrendo por dentro. Morria cada vez mais a cada segundo, sentia minhas entranhas vertendo sangue e na minha garganta um nó me tirava o ar. Era um câncer de grito contido, de lágrima petrificada, de loucura domada. Não me movia, parado entre o trânsito eu não me movia porque era naquele metro quadrado que epifanias me assediavam.  Quando a gente abdica da loucura, a demência vem comendo a gente pelas beiradas — me veio feito fagulha. Junto veio medo da demência. Mas não da morte. Aprendi a resignar-me diante do inevitável. Mas quero evitá-la. Entendi que morria, ali, parado e sorridente, estava morrendo. Morria a cada foda mal dada, a cada grito sussurrado, a cada culpa sentida. Morria a cada beijo seco, a cada abraço frouxo, a cada noite não vista. E é difícil não morrer. Da morte não se foge, é impossível. Refiz meus planos de vida em segundos. Pensei que morte bonita não carrega remorso. E se nessa minha tentativa de morrer com leveza alguma droga acelerar o envelhecimento da minha carne, não vai haver remorso, porque os meus sentidos se viciam cada vez mais nos prazeres, como um delírio hedonista de filme lúdico francês. E então eu vou brindar cada vez mais a tudo que é banal, sacralizar as pequenezas mais corriqueiras e profanar tudo que é dito santo. E sorrindo. Sorrindo bobo, parado no meio do posto quase meia-noite atrapalhando o trânsito dos carros.

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