
Já nem me lembro quanto tempo faz daqueles nossos domingos tão preenchidos de solidão. E a nossa solidão compartilhada era o espaço das nossas invenções, quintal de rebeldia, fantasia, música e um tanto mais de coisas imensuráveis que me permanecem. Lembro de tua voz doce sempre em tom rude falando dos outros, da vida, de mim. Lembro do veludo com o qual enfeitava a voz quando inesperadamente você mansa chegava lamentando em melodia que Marina morena se pintou. Eu mudo, todo ouvidos, todo olhos, inteiro a você e aos teus sons, despretensioso de futuros. Lembro dos silêncios interrompidos pelo riso debochado de coisa qualquer, dos sonos trocados pelo nosso assunto interminável e das horas esquecidas por nós. Vidas inteiras…
O poema que te roubei amarelou dentro de uma enciclopédia esquecida na estante e aquele desenho que fez para mim só achei na mudança para a casa nova. O trevo de quatro folhas está dentro da carteira que já não é a mesma e eu ainda não aprendi a tocar violão, mas guardo a pasta de músicas com nossos rocks preferidos. Queria te ligar no carnaval para falar que estava tocando Camila no meio de músicas baianas sem sentido. Nenhum de Nós, você lembra? Revi os nossos conhecidos no mesmo dia, falamos de uma década atrás, de você e de nós, dos CDs e daquela praça. O acaso te revive em mim.
Não escrevemos em muro nem marcamos nossa vida em tronco de árvore, mas foi difícil ensinar aos outros que teus pés não mais trilhariam meus caminhos, até hoje confundem nossos passos. O Tempo que antes era invisível e indolor é hoje o que nos opõe. Já nem me lembro quanto tempo faz… Eu quase não soube ser sozinho.