Apnéia

Afastei todos os móveis e os medos para você chegar mais perto e fiz questão de não me lembrar dos conselhos, das histórias e das legendas no álbum de fotografia para te receber sem juízo. Segui todo o manual da vida limpa que prescreve permissividade e páginas em branco para te abrir espaço nos meus sorrisos e na minha casa. Traí os meus instintos aguçados para percorrer seus corredores estreitados por indefinições e birras. Eu que tanto gosto de clarezas insisti. Saber lidar com suas inúmeras arestas me fez chegar até aqui sem saber ao certo os caminhos que me trouxeram, agora ensaio saídas, reestruturo os meus espaços, mudo de rota e resgato os meus instintos. Entendo o desconforto, querer ver pelo avesso é defeito meu, mas não precisa do receio. Resguardo as suas verdades, respeito os seus tons.

Alfabeto

Eu era tão cru que ainda não tinha aprendido fugir, mal percebi quando ela me viciou pelo brilho dos seus olhos e a falsa timidez no sorriso. Os caninos pontiagudos mais lindos e afiados que já vi eram ligeiros ao marcar minha pele só por brincadeira, somente pelo constrangimento social no dia seguinte. Página em branco que era, eu aceitei qualquer rabisco como desenho e qualquer rascunho como poesia, cada metáfora banal era um desvendar alucinante daquele peito cheio de caminhos transversais, um feitiço instigante que me absorvia. Eu era iletrado, tolo, sem deus, sem história e feliz. Dedicado e sem pudor, manso e feliz. Sem reservas nem receios, feliz, aprendi a ser homem sobre um corpo de menina.

Ao Tempo

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Santo Tempo santo
Apazigua minhas mágoas
E carrega o peso dos meus rancores.

Justo Tempo
Forja-me forte e cortante
Endureça-me ao necessário.

Deus Tempo
Ensina-me avidez
Municia-me de malícia
Abençoai minhas reações.

Bendito Tempo amansador dos desnorteados
Proteja os meus caminhos das desilusões
Finca meus pés no chão hoje e sempre.

Soberano Tempo que me cria
Não me deixe em desamparo
Não me tire todo o despreparo.

Que me permaneça um bom tanto de fé
Um bom tanto de coisas desconhecidas
E um tantinho só de más lembranças
Que é pra gente não esquecer quem é.

Tempo bondoso
Afasta de mim a desesperança
Permita que a vida surpreenda.

Majestoso Tempo
Suaviza as arestas
Risca sem traumas
Fode de-va-gar-zi-nho.   

Aprendizagem*

Tive de aprender a lidar com teus medos sem cometer a heresia de julgá-los menores que os meus. Cada um sabe de seus incômodos, não há imparcialidade nos seres dotados de amor próprio quando o julgamento nos envolve. Mas eu, quase um Dom Quixote a lutar contra moinhos de vento, assumi e enfrentei os teus medos e os teus modos, os meus medos e as minhas buscas, a minha plenitude e a tua satisfação. E ali vivíamos, eu por ti e tu por qualquer um que te admirasse por mais de dez minutos, cercado dos olhos holofotes de amigos rasos. Rasos que eram, quando a sombra do passado te rodeava e eu era o único que pacientemente estava por ti, amansando teus medos com complacência e toda a lucidez que te faltava. Tantas vezes preteri meu ego para cuidar dos seus medos infantis, desproporcionais aos que pesavam nas minhas costas e endureciam meu semblante. Por tantas noites velei o teu sono e somente encontrei alívio ao imaginar uma pessoa quase completamente diferente de ti ou pelo menos alguém que erguesse o rosto e mergulhasse nos meus olhos sem medo do que poderia encontrar. Tive tanta fé na tua rendição e na tua cura que esqueci de me querer bem, esqueci de me lembrar que rugosidades assim são prenúncios de mal maior. Desculpa os maus costumes que te plantei, desculpa os mimos, eu errei. Renuncio ao cativo.
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Texto feito em parceria com a Ágda, menina talentosa e de bom gosto que escreve lá no Papel de Sêmica.

Memória

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Já nem me lembro quanto tempo faz daqueles nossos domingos tão preenchidos de solidão. E a nossa solidão compartilhada era o espaço das nossas invenções, quintal de rebeldia, fantasia, música e um tanto mais de coisas imensuráveis que me permanecem. Lembro de tua voz doce sempre em tom rude falando dos outros, da vida, de mim. Lembro do veludo com o qual enfeitava a voz quando inesperadamente você mansa chegava lamentando em melodia que Marina morena se pintou. Eu mudo, todo ouvidos, todo olhos, inteiro a você e aos teus sons, despretensioso de futuros. Lembro dos silêncios interrompidos pelo riso debochado de coisa qualquer, dos sonos trocados pelo nosso assunto interminável e das horas esquecidas por nós. Vidas inteiras…

O poema que te roubei amarelou dentro de uma enciclopédia esquecida na estante e aquele desenho que fez para mim só achei na mudança para a casa nova. O trevo de quatro folhas está dentro da carteira que já não é a mesma e eu ainda não aprendi a tocar violão, mas guardo a pasta de músicas com nossos rocks preferidos. Queria te ligar no carnaval para falar que estava tocando Camila no meio de músicas baianas sem sentido. Nenhum de Nós, você lembra? Revi os nossos conhecidos no mesmo dia, falamos de uma década atrás, de você e de nós, dos CDs e daquela praça. O acaso te revive em mim.

Não escrevemos em muro nem marcamos nossa vida em tronco de árvore, mas foi difícil ensinar aos outros que teus pés não mais trilhariam meus caminhos, até hoje confundem nossos passos. O Tempo que antes era invisível e indolor é hoje o que nos opõe. Já nem me lembro quanto tempo faz… Eu quase não soube ser sozinho.

Lodo

Minhas mágoas carregam o peso do tempo, contém o código genético dos meus rancores, dos tantos naufrágios, tempestades e toda variedade de coisas desandadas que são possíveis. E num torpe estopim libertam-se da clausura as minhas estranhezas, que então voltam a percorrer meus nervos e amaldiçoar meu sangue. Em mente nascem tantas vinganças, doces desejos tentadores, planos mesquinhos involutivos em conflito com a vontade de desgraçar tudo que revive em mim o peso do qual me despi.

Cônscio

Fui te afastando com carinho para ser sem dor. Sussurrando os meus defeitos ao pé do teu ouvido enquanto me distanciava por talvez covardia, talvez desilusão. É que eu já estava tão saturado desses reveses que antecipei seu não com minha ausência. O que me restava senão a resignação diante dos seus roteiros engessados que não compreendiam nada além do seu inventado ideal? Eu já não tenho tempo para investir em incertezas, minha fé se recusa às coisas vãs.