
O silêncio que chega a desaviso e permanece sem incômodo é a transa de almas que se querem bem. Kama Sutra supra-dimensional embalado pelo som da nossa respiração.

O silêncio que chega a desaviso e permanece sem incômodo é a transa de almas que se querem bem. Kama Sutra supra-dimensional embalado pelo som da nossa respiração.

A vontade de ir te comendo pelas beiradas, te revirar e envolver até que não haja mais caminhos ou vontade de fuga. Desejo sorver o hálito morno que escorre pelos meus ouvidos quando reza o meu nome em sussurros, beber do café da sua mão em concha pela manhã, secar-me após o banho quente com o seu lençol azulado, usar as suas meias do varal ainda empapadas pelo seu cheiro de preguiça, de cansaço dos dias. Seria seus pés calejados só pra descansar seus dias, mudar a rota, esfregá-lo na areia de praia num domingo lento. Até que tuas manias fossem as minhas, os meus defeitos fossem os teus e a nossa vida modesta fosse grande em detalhes, emaranhadas até desgastarmos nossos vícios, enjoarmos do nosso gosto e entediarmos nosso sexo suado.
E então desmoronaria toda aquela eternidade que a intensidade criou, minhas coisas deixadas na portaria numa caixa de papelão velha aonde chegou nossa primeira TV, alguns CD’s e a coleção de filmes orientais que seriam agora motivo de raiva e tristeza, amaldiçoados pelo fim do nosso amor. Nunca mais Kitano, uma aversão tenebrosa a Adriana Calcanhotto e certo enjôo só de pensar em comer a gelatina bicolor que engordava nossos almoços. Nunca mais os pêlos se misturando na mesma almofada. Meus pertences espalhados pela casa irritando sua organização patológica agora vão criar bolor.
Intimidade se desfaz como se nunca tivesse existido. Atravessar a rua ligeiramente para não precisar decidir se falamos ou não um oi, aquele ciúme ao saber do seu novo amor e a dúvida mesquinha e inevitável se ele mete melhor que eu. Mudar o corte de cabelo numa vingança infantil, somente por saber que apreciava com ternura enrolar seus dedos ágeis nos meus fios compridos. E o importante é não morrer e demonstrar bem-estar, e claro que uma nova namorada com a bunda maior que a sua ajuda muito. A felicidade é saber que ainda te incomodo, só não precisava chamá-la de piranha e outras baixarias, não é assim que sua bunda vai crescer… Já fomos tão melhores que isso, né? Maiores… Talvez…
_____
*Texto redigido a quatro mãos, parceria com a Diana.

Os 100 Clássicos Imperdíveis do Cinema, 1001 Discos Para Ouvir Antes de Morrer, As 7 Novas Maravilhas do Mundo, Top Five da TV Brasileira, 501 isso e aquilo e nenhuma louça pra lavar. Nasceu a Geração Almanaque, a trupe do exagero, essa gente argumentativa e indignada, sempre pronta pra discordar. São pelo menos dez citações por minuto e três revoltas por dia. Tenho andado na rua com certo medo de levar uma surra com exemplares de A Hora da Estrela ou Morangos Mofados. Dia desses comentei que assinava a Veja e fui perseguido pelas ruas da cidade por uns loucos ensandecidos que me alvejavam com links de yorkshire, vlogs irreverentes e apresentações de stand up comedy.
Já que humoristas são os gurus da nova geração, gosto de imaginar o YouTube como o Maracanãzinho, Festival Internacional da Canção, Felipe Neto ovacionado após cantar Disparada, Rafinha Bastos exilado em Londres e agora só acreditando em Deus pra sustentar alguma esperança de mundo real em proporções cabíveis. Espero com pesar pelo dia que Tati Bernardi ou Carpinejar que vai se tornar um imortal da Academia porque estamos assim, todos se surpreendem com o óbvio . Resolvi cancelar minha assinatura da Veja e agora recebo todo dia um e-mail da Editora Abril dizendo que sente minha falta e me pedindo pra voltar. Só volto se ela cantar pra mim “Delícia! Delícia, assim você me mata…”
2012 vem com tudo dando glória!

O verde dos teus olhos marejava os meus. A imensidão da íris me atraía feito mariposa rondando a luz e então eu quis ver tão de perto essas pupilas dilatadas que antes mesmo de decorar teus riscos e aprender suas manias, minhas papilas já se acostumaram com os deslizes da tua língua fluindo junto à minha: imensidão de mar noturno num querer sem fim.
_Este é o último post do ano. Agradeço a todos pelas visitas e comentários nesse 2011, antigos e novos leitores que ajudam a divulgar o Palavras Oblíquas e me estimulam a continuar. Grande abraço, paz e luz pra todos nós e até 2012!

Hoje o dia envelheceu antes que a Lua aparecesse. E talvez por isso a Lua nem tenha se dado o trabalho de surgir no céu para dar algum sentido no vazio de unhas cravadas pesando em minhas costas um tanto encurvadas. A mansidão do dia instalou um mal-estar tão suave que nem machuca, mas faz dos meus pés puro chumbo. Há um cansaço que não é derradeiro e não vem do verbo, vem da inexistência, de tudo que cai antes de se edificar, como o dia que anoitece antes do sol sair. São as faltas que mais me esculpem.

Sua ausência me calou de súbito. Cresceu um vazio pesado como pedra em cima do peito, entalando a garganta, cortando a voz, esmagando toda e qualquer palavra. Eu me odiei por isso, tanto que cuidei para que meu lirismo não fosse efêmero, não fosse parco, ao menos fosse. Queria-te como quem deseja um motivo pra continuar com os dias, com o emprego maçante, com as visitas de domingo entediante aos parentes distantes. Você sempre coloria o azedume do medíocre que é a minha vida sem os seus dedos no meu travesseiro, na minha janela embaçada, no meu dizer verborrágico. Esses versos decassílabos que emoldurei no seu caderno só me tornaram prolixo. E eu que tinha pés tão fincados no chão e mapas dos meus caminhos, me vi perdido em vazio e caos. Percorri atalhos que sempre soube que eram desvios rasos, sem pudor e sem vergonha. Precisei me perdoar a cada noite numa tentativa de apaziguar meu sono, numa vã tentativa que meu sonho não te trouxesse. Sua falta me pesou no nó da garganta todas as vezes que dizia seu nome e não me respondia. Sou o resíduo do caos improdutivo que você deixou entre as suas coisas esquecidas em mim, em nós, em tudo aquilo que deixamos de ser. Sou a vontade de te ter de novo, pelo menos a voz pelo telefone calando o som mudo do seu adeus sem palavras.
-
*Depois de um longo período, eu e Diana voltamos a escrever algo juntos e o resultado é Pilar. Lá no blog dela talvez vocês encontrem uma versão com uma ou outra diferença, lapidações são válidas.

A vaidade trai aqueles que já experimentaram qualquer deficiência de autoestima. Quem se molda pela falta chafurda nas possibilidades de poder, ainda que a compunção esteja logo ali na espreita, esperando o dia amanhecer. Nascem tantos monstros que do mundo se faz inferno e basta uma gota para a tempestade inteira. O peso rabisca o semblante inteiro.
E foi assim que desconstruiu-se para desconhecer quem era. Eu tanto que te prescrevi calma, pequena. Correnteza não reverte, abandona essa angústia, deixa estar, amanhã a gente ri.