Da Carne

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Madrugada, meio da semana, longe demais de sexta-feira e eu caí na besteira de colocar Fagner pra tocar. Gatilho perfeito. Saudade veio lancinante! Tomei um vinho barato para afastar o frio que chega com as tarde de outono e acordei os meus fantasmas para brincar com minhas lembranças. Queria você agora, sem me lembrar de hora nem dia, queria e quero agora, comigo aqui, quente e perto de mim, tateando minha barba com teus dedos miúdos e esquecidos de tudo que ficou do lado de fora do quarto. Queria te mandar mensagem, tocar o seu celular aí do outro do mundo, mas o juízo não me deixa te acordar por coisa tola assim. Fui sempre muito ajuizado para contigo, que merda. A música agora já é outra, da melancolia nem mais vestígios, agora sexo pulsa minhas veias e pinta de vermelho as paredes do meu quarto. Lembro-me dos teus olhos grandes e de uma profundidade que eu não quero explicar agora, mas lindos, infinitos num breu provocante me encarando de perto e me avançando. Lembro-me da tua língua ávida, ácida e hábil me percorrendo por inteiro. O teu cheiro quase palpável que inunda meu quarto escuro aperta ainda mais minha saudade, já não diferencio que música está tocando porque estou faminto, inteiro de desejos. Preciso do teu corpo para percorrer a minha boca, dos teus dentes para arroxear o meu pescoço e não quero mais reservas. Minha fome não é cretina, o meu desejo arde por entregas.

Canhoto

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Meu desejo é torto. Livre e torto, bem como acho que deve ser. Desde quando entendi o que era desejo que percebi o que depois eu soube que se denominava peculiaridade. Gosto tanto dos dois dentes tortos da Carmem. Gosto tanto que cheguei, a certa altura de minha infância, ter também aqueles dois caninos pontiagudos exuberantes e levemente projetados para frente. Por causa deles sempre vi Carmem como felina voluptuosa, a mais distinta dentre as três irmãs. Quando desconstruí a imagem de Carmem como mulher para mim, fiquei meio carente de um defeito cativante até encontrar a cicatriz no braço direito de Laura.

Laura tinha a minha idade, muito diferente de Carmem, vinte quase trinta anos mais vivente que eu. Laura tinha a marca de catorze pontos no braço direito, diz ter se cortado com a porcelana do vaso sanitário que quebrou com ela em pé em cima dele. Lindos e hipnotizantes catorze pontos que me enfeitiçavam e atraíam-me com a intensidade de um ímã. Eu gostava de deslizar os meus dedos sobre aqueles tracinhos nos braços de Laura, que no princípio muito reclamava, mas depois se acostumou e suspeito ter até passado a gostar, mas isso nunca confessou.

Só não pude deixar de perceber e expor a ela minha percepção que depois de mim as blusas de manga longa já não eram maioria em seu guarda-roupa.  E eu achava ainda mais bonito ver Laura mais livre daquele incômodo bobo. Depois de Laura eu me encantei por uma gagueira. Não era nada grave, juro. Era um charme algumas palavras travarem na boca, e eu encontrava ali um intervalo perfeito para um beijo, então a boca me sorria de volta e a palavra antes travada saía agora rodopiante pelo ar em perfeita dicção. Nada me enternecia tanto quanto aquelas palavras ditas com esforço, mas que soavam com leveza e reverberavam em minha carne me despertando emoção.

No inverno eu perdi horas incontáveis com algumas pintas. Muitas pintas. A maioria se concentrava nas costas, em uma noite contabilizei cento e vinte e seis. Lindas, variadas, castanhas pintas que me deixavam absorto naquele corpo alvo. Comecei a nomear aquelas belezuras, algumas eram gêmeas, e tinha também as três marias saindo do ombro e subindo para o pescoço, área onde eu me dedicava por mais tempo e várias vezes me excedi e deixei marcas sobre elas. Ali o gosto era diferente, ali eu não entendia o que me dizia o calendário e nem o relógio. Desejei fazer morada entre as três marias e o cruzeiro do sul. Naquela região tudo era constelação. Mesmo o inverno nos exigindo roupas brutas, eu insistia em desnudá-la para mais uma vez percorrer os meus dedos numa leitura em braile sobre aquelas miúdas. Eu as amava!

No verão seguinte eu avistei olhos que me levantaram suspeita de portar algum tique. Piscadas em excesso, como quando estamos com sono. Eu quis logo! Segui sempre nessas ditas peculiaridades, casos se repetiram, paixões me arderam e os detalhes tortos sempre se fizeram presentes no meu querer. Não é fetiche, já me preocupei que fosse e li uma dúzia de textos, li Freud e também me aprofundei nos conhecimentos de dona Regina. Não é fetiche, mas também não sei explicar. Às vezes suspeito que seja por eu ser canhoto. Canhoto é sinistro, podem pesquisar. Eu demorei muitos anos para conseguir usar um abridor de latas com eficiência porque eu sou canhoto, não dá pra mudar.

Carta

ImagemOi, amor

Há meses adio esta carta porque ainda tenho meus medos infantis de parecer menor ao demonstrar alguma vulnerabilidade. Sei que conversamos tanto sobre isso, mas esses defeitos parecem até que foram cravados com chumbo fundido em nós, de tão difícil que é se livrar deles.

Escrevo-te ainda sob o efeito catártico que obtive nos últimos dias. Andei riscando alguns títulos da minha lista de espera de livros e filmes. Estava precisando desse momento mais in, sabe? Lembra que sempre confidenciávamo-nos sobre nossos ditos casulos? Pois então, estou em crisálida. Crisálida que também fora adiada, tanto ou até mais que esta correspondência. Procrastine um mundo de coisas em nome dos prazeres baratos e rasos que a vida me ofertou. Precisava. Agora é hora de ir alocando os devaneios em seus devidos lugares e ajeitar tudo mais que andou meio jogado e esquecido pelo terreiro d’alma.

Outro dia saí atônito de uma sessão. O filme era demais, deveríamos ter visto juntos, caso não fosse essa distância colossal que agora separa nossas vidas. Minha mãe me trouxe notícias suas, disse ter te encontrado em uma loja lotada pelas comprar do Natal. Falou também da sua miúda, disse-me ter os seus mesmos olhos grandes e profundos no negro da íris. Eu que nunca fui de me enternecer com rebentos, tive os olhos quase marejados com a descrição empolgada de minha mãe.

Andei mergulhado nas linhas de Ana Cristina César. Ela me lembra você em muitos aspectos e devo admitir que foi agridoce lembrar das nossas tardes de domingo e de toda a nossa história. Penei um tempo para entender que não viver de nostalgia não era o mesmo que lutar contra a memória pulsante de um bom pretérito. Mas aprendi. Saudade sem tristeza, nostalgia sem melancolia — alguma coisa assim. E que linha tênue é recordar os seus sabores sem me amargurar inteiro pela falta de ti! Era mais fácil lidar com cicatrizes quando apenas discursávamos sobre elas. Mas Ana C. é incrível! Todo o universo construído pela poética dela me comove e me fascina. Como o seu sorriso e os seus olhos há tempos atrás…

Estou cuidando para tudo florir. Sou melhor que quando antes, é o que vejo, é o que percebo olhando para trás. Daqui sinto também que seu sorriso continua cintilando por aí. A polidez pegou mesmo a gente, né? Que engraçado… Nós dois… Polidos… Eu nunca vou deixar de te querer bem. Quando puder, coloque o “As Quatro Estações” para tocar. Beijos.

Decantação

ImagemDias confusos
trânsito caótico
tantas ideias turvas
flutuantes
desnudando
almas secas

Há soluços
diminuindo os espaços
entre as gentes
que sente os vapores
dos outros
dos seus

Calor
vertigem no asfalto
certezas como bússolas
presenteadas
clareou
os caminhos futuros

Novo dia
fé sólida
pereneando
novos sorrisos
floresceu a esperança
no horizonte desconhecido

Posto

12073140411168771264gas station black.svg.hiEu sorria. Sorria ali parado bem no meio do posto atrapalhando as manobras dos carros que se abasteciam. Sorria indeciso. Não sabia se entrava na loja de conveniência para comprar algum veneno de morte lenta ou se ficava ali, sorrindo indeciso em meio ao movimento dos carros. Sorria por fora porque dentro tudo se rebolia. Estava corroído, caótico, morrendo por dentro. Morria cada vez mais a cada segundo, sentia minhas entranhas vertendo sangue e na minha garganta um nó me tirava o ar. Era um câncer de grito contido, de lágrima petrificada, de loucura domada. Não me movia, parado entre o trânsito eu não me movia porque era naquele metro quadrado que epifanias me assediavam.  Quando a gente abdica da loucura, a demência vem comendo a gente pelas beiradas — me veio feito fagulha. Junto veio medo da demência. Mas não da morte. Aprendi a resignar-me diante do inevitável. Mas quero evitá-la. Entendi que morria, ali, parado e sorridente, estava morrendo. Morria a cada foda mal dada, a cada grito sussurrado, a cada culpa sentida. Morria a cada beijo seco, a cada abraço frouxo, a cada noite não vista. E é difícil não morrer. Da morte não se foge, é impossível. Refiz meus planos de vida em segundos. Pensei que morte bonita não carrega remorso. E se nessa minha tentativa de morrer com leveza alguma droga acelerar o envelhecimento da minha carne, não vai haver remorso, porque os meus sentidos se viciam cada vez mais nos prazeres, como um delírio hedonista de filme lúdico francês. E então eu vou brindar cada vez mais a tudo que é banal, sacralizar as pequenezas mais corriqueiras e profanar tudo que é dito santo. E sorrindo. Sorrindo bobo, parado no meio do posto quase meia-noite atrapalhando o trânsito dos carros.

Poliglota

tumblr_lupv091tTG1qbqwc2o1_1280 Nos primeiros minutos da manhã ela era ainda mais minha. Corria suavemente a mão direita pelo meu corpo, contornava com os dedos da mão esquerda os traços do meu rosto e me suplicava sorrindo que eu perdesse as horas do meu dia. Antes que eu pudesse reagir, lá estava ela se dedicando à minha carne, acordando cada centímetro da minha pele e me sussurrando arrepios. Eu imóvel e entregue, de carne trêmula e veias saltadas. Ela bagunçada e insana ao alvorecer do dia. Dizia que é da natureza uma trepada para começar o dia, que só isso justificava ereções matinais. E ria. E me provocava. E me satisfazia. Jogava longe o meu despertador e me implorava por mais cinco minutos. E quem é louco de negar? Era sempre sim. E eu mais profano, cada dia mais próximo do inferno, pressentia. Perdi meu tempo de rezar, estava em tentação, fechava os olhos buscando paz, meditação, e enxergava bucetas rodopiantes e suculentas como num prisma psicodélico vindo em minha direção. Eu suava. Era delírio! Ela achava bonito me ver sem a máscara de homem sério. Achava divertido me imaginar descomposto inventando desculpas novas para o meu atraso no trabalho. Ela era grande demais para ser posse. De mim não deve ter nada nela, dela tem tanto em mim. E ela nunca foi minha. Dela eu nunca quis saudade. De mim ela só queria: desvios.

Celofane

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Porque ouvir Sérgio Sampaio exige um troço etílico. Cerveja talvez, conhaque com certeza. Às vezes eu peco na mania de legitimar as pessoas pelos artistas que elas ouvem. Não basta conhecer, saber o nome eu sei de muita gente e isso não é nada. Sei até do timbre, sei meia dúzia de músicas e isso não é ouvir. Estou falando é de colocar pra tocar e sofrer junto com o cara ali cantando, saber do acorde dor-delícia, aquele que saiu pelo esforço, auge da angústia. E eu não quero saber se na segunda-feira nossos excessos são maiores, meus pecados não se agravam pelos dias da semana. Encho a cara sábado ou segunda, sem problemas, também sei fuder legal às dez da manhã ou dez da noite, não vai ser um calendário ou relógio a me condicionar ou condenar. Eu tenho medo de parar de beijar na boca. Não estou falando de solidão, nem de fissura ou hiatos na vida afetiva, estou é reclamando que hoje em dia parece que o que mais importa é ver meu pau duro. Eu gosto de beijo na boca. Ereção tenho até quando estou com vontade de mijar, isso não é o mais importante, não tem nada de tão especial assim. Ereção é ordinária. Não, não é papo de brocha, tenho minhas funções todas bem reguladas, só queria mais sutileza, menos furor para que haja mais deleite. Língua roçando na língua, mão rolando pelo corpo, mente longe, os pés fora do chão, carne trêmula de prazer e meu sexo ali, rígido sim, pronto sim, mas usado só quando for a hora, depois de explorados todos os meus sentidos. Sexo é isso, o resto é trepadinha pra gozar antes do miojo ficar pronto. E o que eu quero é mais. Eu gosto quando é mais. Não que uma boa foda rápida não tenha seu valor, há dias que é isso o que mais quero, que é isso o conveniente, mas não é pra sempre, não deve ser a constante. Eu acho que a gente anda perdendo o tino. E essa coisa agora de shows de holograma? Velho, que loucura, que vergonha! Acho meio bizarro o defunto ali no palco, vivo pela tecnologia ainda meio falha. Até brincadeira do copo é mais legal, gira no terreiro é mais vivaz. Mas, penso, deliro, entrar num boteco daqueles de luz baixa que não tem hora pra fechar e dar de cara com Sérgio Sampaio sentado num sofá velho dedilhando em seu violão as notas de Maiúsculo.

“Tenho meus vícios
Vivem dentro de mim esses bichos
São o pai e a mãe dos meus lixos
E às vezes me levam de mal a pior
Pergunto quem
Não sabe disso
Os momentos em que a vida não tem dó

Solto meus bichos
Pelas músicas quando me aflijo
Mas um homem sem esse feitiço
E sem um carinho a que recorrer
Pode matar
Querer correr
Pois perdeu todo sentido de viver”

Bicho, que doideira seria. Sei nem mensurar. Ia correr dali quando amanhecesse, botar meu bloco na rua e pirar de vez. Nem sei mais onde guardei minha loucura, mal sei o que ainda me segura nessa vida de homem direito responsável com os prazos do trabalho e com o horário rígido do emprego que me faz dormir na madrugada, justas horas mais prazerosas de estar acordado. É de madrugada que sou profícuo, na madruga que bem me encaixo. Temperatura, cheiro, clima, energia, papo fluido, riso solto e brisa boa, isso tudo, meu bem, só a madrugada traz. Carrego um monte de saudades. Sei ser mais leve se for madrugada. Não rola angústia e se falo em mágoa é só pra usar como álibi pra mais um copo, mais uma dose, a terceira saideira. Tenho poucas vaidades. Gosto de conhecer artistas antes da fama, dá um orgulho besta, sabe? Eu não vou me culpar, não por isso. Eu quase não tenho remorsos. Nem mesmo quando dou tchau. Precipitadamente eu dou tchau e isso é puro medo. Não agora, não aqui. Eu estou com saudade de ver o mar. Volta Redonda tem céu cinza, no horizonte tem chaminés da CSN e eu até que gosto da poluição que no fim das tardes de verão fazem o céu escurecer colorido, mas saudade eu tenho é do mar. Eu frequento ambientes à meia-luz. Eu sou dos prazeres. Eu me deixo cair em tentação.