NATUREZA

tumblr_n8z130nKli1t0jj16o1_1280Pedra é coisa aguda
Hermética
Estática
Seca

Pedra é coisa una
Ainda que porosa
Ainda que solúvel
Pedra é coisa pétrea

Não areia
Que areia é coisa múltipla
Que outrora pedra
Agora se afina com o tempo

Areia é quase vidro
Ou até cristal
Que se há de ter cuidados
Senão te escorre entre os dedos
Senão te esfola a pele

Sou areia, às vezes pedra
Mas sobretudo areia
Daquelas bem finas
Encontradas nas praias mais antigas
Pequenas partículas
Fruto da força das ondas
Ora calmas
Ora revoltas
E que nunca se junta
E que só sabe ser solta

(Porque areia é onde Xangô se encontra com Iemanjá)

Feitiço

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Ah, mulher!, que infinitude é essa que há nos seus mistérios que não consigo me livrar? Um café coado na calcinha, meus pelos no seu congelador, qualquer mandiga assim, só pode ser. Porque me dá uma coisa estranha entre o peito e o estômago quando lembro dos seus contornos, quando lembro do seu hálito tão aqui assim no meu e me excita pensar nas diferentes nuances do teu gosto.

Eu não sei outra maneira de querer se não for para te viver até o fim. Até te rasgar inteira por dentro, até me fazer tão presente que sua carne vicie nas minhas mãos indecorosas, até que enfim, se renda e me ilumine com essa sua risada de carnaval. E me arde te querer, me alucina as possibilidades infinitas de te comer: pelas beiradas ou primeiro o recheio ou as bordas ou pelo avesso, ao norte e ao sul. Ao todo. Ah, mulher, teu dom é o desassossego!

Verdejante

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Não é que eu seja um canalha, amor. É que quando você me quis, tudo mudou. Seus gestos, seu jeito, as perguntas, o seu tom, seu perfume, nossos beijos, nossos domingos. Eu sou um encantado pela naturalidade das coisas e perceber esses seus passos elaborados me incomoda, me desestimula, me dá medo e daí é isso: escorrego, sou evasivo, arredio, respondo vazio, pareço não te querer. E não, eu não quero te cavar mágoas, nem te deixar assim ao esmo, num abandono típico de um canalha. O problema é que se eu precisar te dizer com todas as palavras como é que você deve ser, vou te perder. Não quero criar alguém para mim, acho injusto comigo e contigo. Então não me peça mapas dos meus caminhos, não deixe de ser. Acho tão bonito o existir. Eu não vou me perder, não vou me diluir. Não tenhamos pressa, eu te espero mais inteira, mais lúcida, enfim, livre de mim. Porque quem eu quero é você.

Contradições contemporâneas e flamejantes

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No fim dessa tarde sufocada fui arrebatado, de novo e mais uma vez, pela angústia da limitação. Até quando vou fingir que ainda sou o que já fui um dia? Mudei calado, me destruí quieto e sem recorrer aos cantos, renasci em silêncio fugindo do assombro dos estranhos. Agora feito, vejo que não me resta mais nada senão colocar meus pés no mundo e viver o desprendimento que minh’alma pede. Mas por que diabos são tão distantes nossos sonhos da realidade? Vivemos presos a essa rotina de sorrir para semi-conhecidos que nos esbarram pelas ruas, dormir tarde e acordar cedo para trabalhar, gastar dinheiro e energia em coisas que me são poucas, me travestir de indiferença para amortecer conflitos iminentes, forjar complacência, escutar os discos antigos do Caetano sem nenhuma droga na cabeça, de que adianta? Dá fissura. Dá ânsia. E eu não tenho medo da morte. Eu tenho medo de quando saturno completar seu primeiro ciclo no meu mapa astral: e aí, o que serei? Para onde vou? O que trarei de marcas? A vida me quer homem reto de compromissos cumpridos exemplarmente. E a família me quer homem reto que concretiza as expectativas traçadas antes mesmo de eu nascer ou entender o que era mundo. E outros me querem homem sem glúten macrobiótico vegetariano e essa porra toda que são apenas mais limites, menos liberdade, menos espontaneidade. Meu corpo quer é só gozar e, quando for preciso, também curtir umas nóias e umas dores ouvindo Dalva de Oliveira ou Cazuza, The Doors para sexta-feira à noite e samba para os almoços de domingo. Meu corpo quer ser solto, mas meu contra-cheque no fim de cada mês vai nutrindo meu cordão umbilical, que cada dia fica mais firme e fibroso, mais eficiente na sua função de prender-me nessa camada de mundo morno normal. Para esquecer que eu me traio a cada ímpeto que jogo de escanteio, me enveneno em doses homeopáticas: a cerveja semanal, o riso frouxo e besta, pequenas seduções, grandes abandonos e a distância do Mar. Um dia tudo isso me mata, sei de quem já morreu e até mesmo se esqueceu de que é bonito venerar as margaridas. Indo, todos estão indo. Ou ficando, não sei, questão de perspectiva. Gerúndio sempre, como se fosse lei.

Tropicalícia

comigo
nenhum remorso
nos ombros a tranquilidade
de ter te vivido
no peito a paz
de ter te encontrado
na alma a experiência
do porto
no corpo
a memória aflorada
a pele suada
o corpo ofegante
nos pés o norte
no sorriso leveza
nos planos
outras rotas
outros sabores
e quem sabe
nosso reencontro
em outra latitude
n’outro trânsito astral
peculiar e tropical
onde a gente estreie
outro amor
ainda mais sacana
bobo e destemido
como no carnaval
ó minha flor morena
de sotaque de Tieta
e desajustes de Macabéa
que fique sempre linda
que fique sol
comigo

Marina

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Quando veio a Lua mais iluminada do frio outono, sua maré atingia-me com força: verde mar em Lua cheia. E quando já não esperava mais que suas águas me encharcassem, vieste em ondas certeiras arrebatando-me outra vez, me adoçando com seu canto de vento Sul e iluminando os meus olhos cor de infinito: sorri. Suas ondas confundem meu equilíbrio e sinto as suas águas borbulharem em mim, agitadas ainda mais pela ansiedade de querer que dessa vez se demore. As águas parecem querer expandir-se, escorrer por aí seguindo o caminho natural das águas naturais, acompanho estes movimentos vislumbrando rotas futuras de passos em comum. E ainda que eu tente firmar meus pés e parecer sereno, é de areia o assoalho marinho, move-se como o vai-e-vem das suas águas marinhas, torna-me vulnerável e pequeno diante da imensidão do seu verde-mar: entorno-me. E por ser de sal as suas águas, quanto mais de ti eu me sacio, mais de ti eu sinto sede.
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Da Carne

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Madrugada, meio da semana, longe demais de sexta-feira e eu caí na besteira de colocar Fagner pra tocar. Gatilho perfeito. Saudade veio lancinante! Tomei um vinho barato para afastar o frio que chega com as tarde de outono e acordei os meus fantasmas para brincar com minhas lembranças. Queria você agora, sem me lembrar de hora nem dia, queria e quero agora, comigo aqui, quente e perto de mim, tateando minha barba com teus dedos miúdos e esquecidos de tudo que ficou do lado de fora do quarto. Queria te mandar mensagem, tocar o seu celular aí do outro do mundo, mas o juízo não me deixa te acordar por coisa tola assim. Fui sempre muito ajuizado para contigo, que merda. A música agora já é outra, da melancolia nem mais vestígios, agora sexo pulsa minhas veias e pinta de vermelho as paredes do meu quarto. Lembro-me dos teus olhos grandes e de uma profundidade que eu não quero explicar agora, mas lindos, infinitos num breu provocante me encarando de perto e me avançando. Lembro-me da tua língua ávida, ácida e hábil me percorrendo por inteiro. O teu cheiro quase palpável que inunda meu quarto escuro aperta ainda mais minha saudade, já não diferencio que música está tocando porque estou faminto, inteiro de desejos. Preciso do teu corpo para percorrer a minha boca, dos teus dentes para arroxear o meu pescoço e não quero mais reservas. Minha fome não é cretina, o meu desejo arde por entregas.