Verdejante

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Não é que eu seja um canalha, amor. É que quando você me quis, tudo mudou. Seus gestos, seu jeito, as perguntas, o seu tom, seu perfume, nossos beijos, nossos domingos. Eu sou um encantado pela naturalidade das coisas e perceber esses seus passos elaborados me incomoda, me desestimula, me dá medo e daí é isso: escorrego, sou evasivo, arredio, respondo vazio, pareço não te querer. E não, eu não quero te cavar mágoas, nem te deixar assim ao esmo, num abandono típico de um canalha. O problema é que se eu precisar te dizer com todas as palavras como é que você deve ser, vou te perder. Não quero criar alguém para mim, acho injusto comigo e contigo. Então não me peça mapas dos meus caminhos, não deixe de ser. Acho tão bonito o existir. Eu não vou me perder, não vou me diluir. Não tenhamos pressa, eu te espero mais inteira, mais lúcida, enfim, livre de mim. Porque quem eu quero é você.

Contradições contemporâneas e flamejantes

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No fim dessa tarde sufocada fui arrebatado, de novo e mais uma vez, pela angústia da limitação. Até quando vou fingir que ainda sou o que já fui um dia? Mudei calado, me destruí quieto e sem recorrer aos cantos, renasci em silêncio fugindo do assombro dos estranhos. Agora feito, vejo que não me resta mais nada senão colocar meus pés no mundo e viver o desprendimento que minh’alma pede. Mas por que diabos são tão distantes nossos sonhos da realidade? Vivemos presos a essa rotina de sorrir para semi-conhecidos que nos esbarram pelas ruas, dormir tarde e acordar cedo para trabalhar, gastar dinheiro e energia em coisas que me são poucas, me travestir de indiferença para amortecer conflitos iminentes, forjar complacência, escutar os discos antigos do Caetano sem nenhuma droga na cabeça, de que adianta? Dá fissura. Dá ânsia. E eu não tenho medo da morte. Eu tenho medo de quando saturno completar seu primeiro ciclo no meu mapa astral: e aí, o que serei? Para onde vou? O que trarei de marcas? A vida me quer homem reto de compromissos cumpridos exemplarmente. E a família me quer homem reto que concretiza as expectativas traçadas antes mesmo de eu nascer ou entender o que era mundo. E outros me querem homem sem glúten macrobiótico vegetariano e essa porra toda que são apenas mais limites, menos liberdade, menos espontaneidade. Meu corpo quer é só gozar e, quando for preciso, também curtir umas nóias e umas dores ouvindo Dalva de Oliveira ou Cazuza, The Doors para sexta-feira à noite e samba para os almoços de domingo. Meu corpo quer ser solto, mas meu contra-cheque no fim de cada mês vai nutrindo meu cordão umbilical, que cada dia fica mais firme e fibroso, mais eficiente na sua função de prender-me nessa camada de mundo morno normal. Para esquecer que eu me traio a cada ímpeto que jogo de escanteio, me enveneno em doses homeopáticas: a cerveja semanal, o riso frouxo e besta, pequenas seduções, grandes abandonos e a distância do Mar. Um dia tudo isso me mata, sei de quem já morreu e até mesmo se esqueceu de que é bonito venerar as margaridas. Indo, todos estão indo. Ou ficando, não sei, questão de perspectiva. Gerúndio sempre, como se fosse lei.

Tropicalícia

comigo
nenhum remorso
nos ombros a tranquilidade
de ter te vivido
no peito a paz
de ter te encontrado
na alma a experiência
do porto
no corpo
a memória aflorada
a pele suada
o corpo ofegante
nos pés o norte
no sorriso leveza
nos planos
outras rotas
outros sabores
e quem sabe
nosso reencontro
em outra latitude
n’outro trânsito astral
peculiar e tropical
onde a gente estreie
outro amor
ainda mais sacana
bobo e destemido
como no carnaval
ó minha flor morena
de sotaque de Tieta
e desajustes de Macabéa
que fique sempre linda
que fique sol
comigo

Marina

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Quando veio a Lua mais iluminada do frio outono, sua maré atingia-me com força: verde mar em Lua cheia. E quando já não esperava mais que suas águas me encharcassem, vieste em ondas certeiras arrebatando-me outra vez, me adoçando com seu canto de vento Sul e iluminando os meus olhos cor de infinito: sorri. Suas ondas confundem meu equilíbrio e sinto as suas águas borbulharem em mim, agitadas ainda mais pela ansiedade de querer que dessa vez se demore. As águas parecem querer expandir-se, escorrer por aí seguindo o caminho natural das águas naturais, acompanho estes movimentos vislumbrando rotas futuras de passos em comum. E ainda que eu tente firmar meus pés e parecer sereno, é de areia o assoalho marinho, move-se como o vai-e-vem das suas águas marinhas, torna-me vulnerável e pequeno diante da imensidão do seu verde-mar: entorno-me. E por ser de sal as suas águas, quanto mais de ti eu me sacio, mais de ti eu sinto sede.
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Da Carne

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Madrugada, meio da semana, longe demais de sexta-feira e eu caí na besteira de colocar Fagner pra tocar. Gatilho perfeito. Saudade veio lancinante! Tomei um vinho barato para afastar o frio que chega com as tarde de outono e acordei os meus fantasmas para brincar com minhas lembranças. Queria você agora, sem me lembrar de hora nem dia, queria e quero agora, comigo aqui, quente e perto de mim, tateando minha barba com teus dedos miúdos e esquecidos de tudo que ficou do lado de fora do quarto. Queria te mandar mensagem, tocar o seu celular aí do outro do mundo, mas o juízo não me deixa te acordar por coisa tola assim. Fui sempre muito ajuizado para contigo, que merda. A música agora já é outra, da melancolia nem mais vestígios, agora sexo pulsa minhas veias e pinta de vermelho as paredes do meu quarto. Lembro-me dos teus olhos grandes e de uma profundidade que eu não quero explicar agora, mas lindos, infinitos num breu provocante me encarando de perto e me avançando. Lembro-me da tua língua ávida, ácida e hábil me percorrendo por inteiro. O teu cheiro quase palpável que inunda meu quarto escuro aperta ainda mais minha saudade, já não diferencio que música está tocando porque estou faminto, inteiro de desejos. Preciso do teu corpo para percorrer a minha boca, dos teus dentes para arroxear o meu pescoço e não quero mais reservas. Minha fome não é cretina, o meu desejo arde por entregas.

Canhoto

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Meu desejo é torto. Livre e torto, bem como acho que deve ser. Desde quando entendi o que era desejo que percebi o que depois eu soube que se denominava peculiaridade. Gosto tanto dos dois dentes tortos da Carmem. Gosto tanto que cheguei, a certa altura de minha infância, ter também aqueles dois caninos pontiagudos exuberantes e levemente projetados para frente. Por causa deles sempre vi Carmem como felina voluptuosa, a mais distinta dentre as três irmãs. Quando desconstruí a imagem de Carmem como mulher para mim, fiquei meio carente de um defeito cativante até encontrar a cicatriz no braço direito de Laura.

Laura tinha a minha idade, muito diferente de Carmem, vinte quase trinta anos mais vivente que eu. Laura tinha a marca de catorze pontos no braço direito, diz ter se cortado com a porcelana do vaso sanitário que quebrou com ela em pé em cima dele. Lindos e hipnotizantes catorze pontos que me enfeitiçavam e atraíam-me com a intensidade de um ímã. Eu gostava de deslizar os meus dedos sobre aqueles tracinhos nos braços de Laura, que no princípio muito reclamava, mas depois se acostumou e suspeito ter até passado a gostar, mas isso nunca confessou.

Só não pude deixar de perceber e expor a ela minha percepção que depois de mim as blusas de manga longa já não eram maioria em seu guarda-roupa.  E eu achava ainda mais bonito ver Laura mais livre daquele incômodo bobo. Depois de Laura eu me encantei por uma gagueira. Não era nada grave, juro. Era um charme algumas palavras travarem na boca, e eu encontrava ali um intervalo perfeito para um beijo, então a boca me sorria de volta e a palavra antes travada saía agora rodopiante pelo ar em perfeita dicção. Nada me enternecia tanto quanto aquelas palavras ditas com esforço, mas que soavam com leveza e reverberavam em minha carne me despertando emoção.

No inverno eu perdi horas incontáveis com algumas pintas. Muitas pintas. A maioria se concentrava nas costas, em uma noite contabilizei cento e vinte e seis. Lindas, variadas, castanhas pintas que me deixavam absorto naquele corpo alvo. Comecei a nomear aquelas belezuras, algumas eram gêmeas, e tinha também as três marias saindo do ombro e subindo para o pescoço, área onde eu me dedicava por mais tempo e várias vezes me excedi e deixei marcas sobre elas. Ali o gosto era diferente, ali eu não entendia o que me dizia o calendário e nem o relógio. Desejei fazer morada entre as três marias e o cruzeiro do sul. Naquela região tudo era constelação. Mesmo o inverno nos exigindo roupas brutas, eu insistia em desnudá-la para mais uma vez percorrer os meus dedos numa leitura em braile sobre aquelas miúdas. Eu as amava!

No verão seguinte eu avistei olhos que me levantaram suspeita de portar algum tique. Piscadas em excesso, como quando estamos com sono. Eu quis logo! Segui sempre nessas ditas peculiaridades, casos se repetiram, paixões me arderam e os detalhes tortos sempre se fizeram presentes no meu querer. Não é fetiche, já me preocupei que fosse e li uma dúzia de textos, li Freud e também me aprofundei nos conhecimentos de dona Regina. Não é fetiche, mas também não sei explicar. Às vezes suspeito que seja por eu ser canhoto. Canhoto é sinistro, podem pesquisar. Eu demorei muitos anos para conseguir usar um abridor de latas com eficiência porque eu sou canhoto, não dá pra mudar.

Carta

ImagemOi, amor

Há meses adio esta carta porque ainda tenho meus medos infantis de parecer menor ao demonstrar alguma vulnerabilidade. Sei que conversamos tanto sobre isso, mas esses defeitos parecem até que foram cravados com chumbo fundido em nós, de tão difícil que é se livrar deles.

Escrevo-te ainda sob o efeito catártico que obtive nos últimos dias. Andei riscando alguns títulos da minha lista de espera de livros e filmes. Estava precisando desse momento mais in, sabe? Lembra que sempre confidenciávamo-nos sobre nossos ditos casulos? Pois então, estou em crisálida. Crisálida que também fora adiada, tanto ou até mais que esta correspondência. Procrastine um mundo de coisas em nome dos prazeres baratos e rasos que a vida me ofertou. Precisava. Agora é hora de ir alocando os devaneios em seus devidos lugares e ajeitar tudo mais que andou meio jogado e esquecido pelo terreiro d’alma.

Outro dia saí atônito de uma sessão. O filme era demais, deveríamos ter visto juntos, caso não fosse essa distância colossal que agora separa nossas vidas. Minha mãe me trouxe notícias suas, disse ter te encontrado em uma loja lotada pelas comprar do Natal. Falou também da sua miúda, disse-me ter os seus mesmos olhos grandes e profundos no negro da íris. Eu que nunca fui de me enternecer com rebentos, tive os olhos quase marejados com a descrição empolgada de minha mãe.

Andei mergulhado nas linhas de Ana Cristina César. Ela me lembra você em muitos aspectos e devo admitir que foi agridoce lembrar das nossas tardes de domingo e de toda a nossa história. Penei um tempo para entender que não viver de nostalgia não era o mesmo que lutar contra a memória pulsante de um bom pretérito. Mas aprendi. Saudade sem tristeza, nostalgia sem melancolia — alguma coisa assim. E que linha tênue é recordar os seus sabores sem me amargurar inteiro pela falta de ti! Era mais fácil lidar com cicatrizes quando apenas discursávamos sobre elas. Mas Ana C. é incrível! Todo o universo construído pela poética dela me comove e me fascina. Como o seu sorriso e os seus olhos há tempos atrás…

Estou cuidando para tudo florir. Sou melhor que quando antes, é o que vejo, é o que percebo olhando para trás. Daqui sinto também que seu sorriso continua cintilando por aí. A polidez pegou mesmo a gente, né? Que engraçado… Nós dois… Polidos… Eu nunca vou deixar de te querer bem. Quando puder, coloque o “As Quatro Estações” para tocar. Beijos.