Que nome tem?

Apagava os seus rastros por onde passava, como quem pudesse começar uma nova vida a qualquer momento. Ela não tinha apegos e fazia questão de não ter história. Falava muito sobre tudo, falava bem, possuía argumentos bonitos como se não tivesse vivido as mais terríveis decepções. Não falava de si. Ou se falava, era muito pouco, sempre de maneira dispersa e evasiva, mas igualmente convincente. Um dia a encontrei onde eu não esperava e quis lhe dar um abraço, sorrir e dizer coisas bonitas, mas não pude. Ela não me reconheceu, não quis me reconhecer, não me esperava ali enxergando-a cheia dos seus adornos ou alguma coisa assim. Talvez tudo isso junto. Ela não me reconheceu. Eu entendi. O contexto e a história entre mim e ela era outro e eu não fazia parte daquela história que ela vivia ali. Eu a entendi e sorri mesmo assim, meio que de longe, da maneira mais discreta possível. Ninguém entendeu eu tentar intimidade com aquela que me esnobou, mas eu entendi. Eu rememorei e desejei profundamente reviver o fascínio de antes. Tolice minha, eu sei. Depois do dia fatídico eu nunca mais a vi, e se vi foi como se não tivesse visto, respeitei sua decisão. Sou ouvido de muitas histórias, mas essa me foi contada sem uma palavra sequer, o olhar evasivo me disse tudo naquele dia. Só quem nos vira perdidos e sem destino certo naquela noite sabe do amor inato que descobrimos ali. Uma felicidade dilacerante nos atingia como quando crianças descobrindo o primeiro gozo. Com ela tudo me pareceu ser estreia. Que nome tem?

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Domingo Amargo

10898078_10424569_pmQuase três da manhã, fim de noite de domingo, já é segunda-feira e eu querendo achar algum lugar aberto para tomar a saideira e depois ir pra casa. Já cruzei quase a cidade toda a pé, tudo fechado. Choveu bastante algumas horas antes, tá tudo deserto, nem os bichos fazem barulho. Quase três da manhã e eu preciso de só mais uma cerveja para manter a minha onda e dormir tranquilo. Cansado e tranquilo, gosto de dormir assim, é como um transe. Saudade de quando tinham mais inferninhos nessa cidade, mas estão todos encaretando, até a cidade. A loja de conveniência doposto de combustível não vende álcool de madrugada. Que merda. Que inútil. Pego uma água e saio ironizando o atendente que foi escroto, emputecido porque eu só queria beber uma cerveja na rua e não consigo. Quase três da manhã e eu lembro das histórias que minha bisavó contava. Às três da manhã foi a hora em que Judas traiu Jesus, ela dizia, é a melhor hora para se fazer feitiços de morte. Não tenho medo da rua escura, até gosto, luz incomoda meus olhos, a luz branca quase me corta. Quase três da manhã e lembro de um trailer que pode estar aberto. Vou precisar andar mais um tanto, mas agora tanto faz, às três da manhã pouca coisa importa realmente. Tá aberto, ufa! Peço uma cerveja no balcão, já tem gente passando para ir trabalhar. Afasto-me um pouco dali, a luz é clara, procuro uma sombra mais adiante, sento num banco de alvenaria gelado para tomar minha cerveja. Minhas papilas gustativas estão em festa. Cerveja gelada! Uma mulher se aproxima, pede cigarro, mas só tenho isqueiro. Desconfia, me olha meio de lado, pergunta se curto um beck. Pensei que a resposta positiva me traria uma ponta salvadora, que nada, o que ela tem é pó. Senta-se ao meu lado, bate uma carreira, diz que é minha vez, mas nego, não curto a vibe, ela me xinga, nem ligo. Há uma hostilidade no ar que não consigo interpretar e nem desconstruir. Ela pega meu copo e o borra todo de batom. Bebe num gole. Diz que é puta, me chama pra trepar, domingo é mais barato, cem reais por uma hora. Anal maravilhoso, ela se gaba. Eu rio. Não pago por sexo, acho escroto, não me dá tesão. Gosto é da conquista, dinheiro é atalho, objetivo demais para me excitar. Ela levanta bruscamente, parece brava, imagino que deve ter alguma faca ou canivete, mas estou de boa, não consigo sentir medo. Pede dinheiro pra outra cerveja, eu dou. Ela volta, senta-se ao meu lado, já é outra pessoa, agora tão mais doce, parece vulnerável, quer me contar histórias. Entre um gole e outro arruma o sutiã, mexe nos seios, parece querer me provocar. Confere com o olho meu pau. Vejo tudo como se estivesse de fora, mas tô preso num corpo embriagado, com os lábios quase dormentes. Os ouvidos estão atentos, tento não bocejar para que ela não se ofenda, são histórias interessantes. Ela tem clientes mensalistas, todos casados. Um deles curte beijo grego. Sinto um pouco de nojo, mas não demonstro, apenas rio, faço uma pergunta qualquer, ela ignora, continua sua história. Diz que o cara tem mau hálito, então ela prefere nem conversar muito com ele, prefere fazer logo o beijo grego e ir embora. O celular toca, ela sai rebolando e pisando nas poças d’água, quase cai por causa de um paralelepípedo torto. Grita um palavrão e some ao dobrar uma esquina. O dia tá claro, meus olhos ardem, só preciso dormir. Sinto a boca apertar de tão seca. Gosto amargo. Vou acordar de ressaca.

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Lotação 440

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Delirei nas tuas possibilidades desde a primeira vez que te vi naquela manhã cinza de uma segunda-feira. Ônibus cheio, eu ofegante tentando entender como pude me atrasar, eu ansioso para chegar pontual no emprego e você ali reluzindo e desviando minha atenção, me embebedando de respostas e calmaria. Engravidei do teu olhar profundo, às vezes quase apático, que ao penetrar a minha pele fecundou os meus desejos encarnados. Ali mesmo eu te despi sem parcimônia e envolvi meu corpo em volta do teu, expandi cada poro com o vapor dos meus sussurros e explorei cada detalhe íntimo para a piração dos meus sentidos. Desembarquei.

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Feitiço

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Ah, mulher!, que infinitude é essa que há nos seus mistérios que não consigo me livrar? Um café coado na calcinha, meus pelos no seu congelador, qualquer mandiga assim, só pode ser. Porque me dá uma coisa estranha entre o peito e o estômago quando lembro dos seus contornos, quando lembro do seu hálito tão aqui assim no meu e me excita pensar nas diferentes nuances do teu gosto.

Eu não sei outra maneira de querer se não for para te viver até o fim. Até te rasgar inteira por dentro, até me fazer tão presente que sua carne vicie nas minhas mãos indecorosas, até que enfim, se renda e me ilumine com essa sua risada de carnaval. E me arde te querer, me alucina as possibilidades infinitas de te comer: pelas beiradas ou primeiro o recheio ou as bordas ou pelo avesso, ao norte e ao sul. Ao todo. Ah, mulher, teu dom é o desassossego!

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Tropicalícia

comigo
nenhum remorso
nos ombros a tranquilidade
de ter te vivido
no peito a paz
de ter te encontrado
na alma a experiência
do porto
no corpo
a memória aflorada
a pele suada
o corpo ofegante
nos pés o norte
no sorriso leveza
nos planos
outras rotas
outros sabores
e quem sabe
nosso reencontro
em outra latitude
n’outro trânsito astral
peculiar e tropical
onde a gente estreie
outro amor
ainda mais sacana
bobo e destemido
como no carnaval
ó minha flor morena
de sotaque de Tieta
e desajustes de Macabéa
que fique sempre linda
que fique sol
comigo

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Da Carne

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Madrugada, meio da semana, longe demais de sexta-feira e eu caí na besteira de colocar Fagner pra tocar. Gatilho perfeito. Saudade veio lancinante! Tomei um vinho barato para afastar o frio que chega com as tarde de outono e acordei os meus fantasmas para brincar com minhas lembranças. Queria você agora, sem me lembrar de hora nem dia, queria e quero agora, comigo aqui, quente e perto de mim, tateando minha barba com teus dedos miúdos e esquecidos de tudo que ficou do lado de fora do quarto. Queria te mandar mensagem, tocar o seu celular aí do outro do mundo, mas o juízo não me deixa te acordar por coisa tola assim. Fui sempre muito ajuizado para contigo, que merda. A música agora já é outra, da melancolia nem mais vestígios, agora sexo pulsa minhas veias e pinta de vermelho as paredes do meu quarto. Lembro-me dos teus olhos grandes e de uma profundidade que eu não quero explicar agora, mas lindos, infinitos num breu provocante me encarando de perto e me avançando. Lembro-me da tua língua ávida, ácida e hábil me percorrendo por inteiro. O teu cheiro quase palpável que inunda meu quarto escuro aperta ainda mais minha saudade, já não diferencio que música está tocando porque estou faminto, inteiro de desejos. Preciso do teu corpo para percorrer a minha boca, dos teus dentes para arroxear o meu pescoço e não quero mais reservas. Minha fome não é cretina, o meu desejo arde por entregas.

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Poliglota

tumblr_lupv091tTG1qbqwc2o1_1280 Nos primeiros minutos da manhã ela era ainda mais minha. Corria suavemente a mão direita pelo meu corpo, contornava com os dedos da mão esquerda os traços do meu rosto e me suplicava sorrindo que eu perdesse as horas do meu dia. Antes que eu pudesse reagir, lá estava ela se dedicando à minha carne, acordando cada centímetro da minha pele e me sussurrando arrepios. Eu imóvel e entregue, de carne trêmula e veias saltadas. Ela bagunçada e insana ao alvorecer do dia. Dizia que é da natureza uma trepada para começar o dia, que só isso justificava ereções matinais. E ria. E me provocava. E me satisfazia. Jogava longe o meu despertador e me implorava por mais cinco minutos. E quem é louco de negar? Era sempre sim. E eu mais profano, cada dia mais próximo do inferno, pressentia. Perdi meu tempo de rezar, estava em tentação, fechava os olhos buscando paz, meditação, e enxergava bucetas rodopiantes e suculentas como num prisma psicodélico vindo em minha direção. Eu suava. Era delírio! Ela achava bonito me ver sem a máscara de homem sério. Achava divertido me imaginar descomposto inventando desculpas novas para o meu atraso no trabalho. Ela era grande demais para ser posse. De mim não deve ter nada nela, dela tem tanto em mim. E ela nunca foi minha. Dela eu nunca quis saudade. De mim ela só queria: desvios.

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