Obituário

Engasguei com palavra presa na garganta atrapalhando a passagem do ar. Palavra velha criou bolor no meu estômago e atrapalha minha digestão de tudo que como, de todos que bebo e também do que sinto. Engravidei de distração: a política, as novas músicas, a nova novela, a moça do tempo, o ajuste fiscal, todas as novas regras dessa nossa velha vida, os prazos, mil notícias por minuto e os livros abandonados na estante. Longe, distraído, amortecido e desligado, esqueci do meu umbigo. E foi hoje no banho que voltei a notá-lo: estufado, feio e deformado. Hérnia. Palavra sem saída. E agora tudo que tenho é palavra mal formada retirada num aborto provocado antes que vire pedra ou coisa pior: mágoa. Que me desculpem os bons adestradores da linguagem, mas serei medíocre, brega, piegas, pleonástico e talvez até mórbido, porque o que agora me pede passagem é só palavra carpideira lamuriando a própria morte. O que virá a seguir são relatos de vida pretérita aleatoriamente arranjados, assim como a vida, nunca linear.

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