O traço de Oyá

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Sofro de um mal que percorre os séculos e todas as letras em todos os idiomas. Sofro de incompletudes. Manoel de Barros também tinha suas incompletudes e descreveu melhor que ninguém o que é vazio. E soube também preencher vazio com canto de passarinho. Mas eu infelizmente sou urbano. Cercado de concreto, muros, regras e modos. Fico com vontade de um mato, um canto, outra vida, outros valores. Casa no Campo, tamanho grande, tijolinhos de barro e tapeçaria artesanal e coisas assim. Caneca esmaltada até já tenho em casa. Devaneio em meus pensamentos montando lares distintos, ora longe, ora perto, ora aqui mesmo. Às vezes dez anos à frente, outras vezes quatro anos atrás. Dois mil e onze foi um ano bonito – recordo. Incompletude não tem cura – concluo. Aí por onde andei, em cada praça, cada rua, cada canto e cada curva eu deixei pedaços meus em troca de saudades. A memória tornou-se morada dos cheiros, dos gostos e das formas: de lugares, de atmosferas, horizontes e pessoas. Descobri afeto em outras latitudes e nunca mais consegui voltar totalmente para onde resido. Vou me largando por aí, involuntariamente entregando meus eus e não sei se é dádiva ou danação essa coisa de carregar saudades e vontades. Sou estrangeiro em todos os lugares, mas sei fazer lar em olhares recíprocos, sorrisos abertos e almas reluzentes. Não sei renunciar à liberdade de descobrir motivos para acumular outras saudades e agravar minha incompletude.

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2 comentários sobre “O traço de Oyá

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