Canhoto

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Meu desejo é torto. Livre e torto, bem como acho que deve ser. Desde quando entendi o que era desejo que percebi o que depois eu soube que se denominava peculiaridade. Gosto tanto dos dois dentes tortos da Carmem. Gosto tanto que cheguei, a certa altura de minha infância, ter também aqueles dois caninos pontiagudos exuberantes e levemente projetados para frente. Por causa deles sempre vi Carmem como felina voluptuosa, a mais distinta dentre as três irmãs. Quando desconstruí a imagem de Carmem como mulher para mim, fiquei meio carente de um defeito cativante até encontrar a cicatriz no braço direito de Laura.

Laura tinha a minha idade, muito diferente de Carmem, vinte quase trinta anos mais vivente que eu. Laura tinha a marca de catorze pontos no braço direito, diz ter se cortado com a porcelana do vaso sanitário que quebrou com ela em pé em cima dele. Lindos e hipnotizantes catorze pontos que me enfeitiçavam e atraíam-me com a intensidade de um ímã. Eu gostava de deslizar os meus dedos sobre aqueles tracinhos nos braços de Laura, que no princípio muito reclamava, mas depois se acostumou e suspeito ter até passado a gostar, mas isso nunca confessou.

Só não pude deixar de perceber e expor a ela minha percepção que depois de mim as blusas de manga longa já não eram maioria em seu guarda-roupa.  E eu achava ainda mais bonito ver Laura mais livre daquele incômodo bobo. Depois de Laura eu me encantei por uma gagueira. Não era nada grave, juro. Era um charme algumas palavras travarem na boca, e eu encontrava ali um intervalo perfeito para um beijo, então a boca me sorria de volta e a palavra antes travada saía agora rodopiante pelo ar em perfeita dicção. Nada me enternecia tanto quanto aquelas palavras ditas com esforço, mas que soavam com leveza e reverberavam em minha carne me despertando emoção.

No inverno eu perdi horas incontáveis com algumas pintas. Muitas pintas. A maioria se concentrava nas costas, em uma noite contabilizei cento e vinte e seis. Lindas, variadas, castanhas pintas que me deixavam absorto naquele corpo alvo. Comecei a nomear aquelas belezuras, algumas eram gêmeas, e tinha também as três marias saindo do ombro e subindo para o pescoço, área onde eu me dedicava por mais tempo e várias vezes me excedi e deixei marcas sobre elas. Ali o gosto era diferente, ali eu não entendia o que me dizia o calendário e nem o relógio. Desejei fazer morada entre as três marias e o cruzeiro do sul. Naquela região tudo era constelação. Mesmo o inverno nos exigindo roupas brutas, eu insistia em desnudá-la para mais uma vez percorrer os meus dedos numa leitura em braile sobre aquelas miúdas. Eu as amava!

No verão seguinte eu avistei olhos que me levantaram suspeita de portar algum tique. Piscadas em excesso, como quando estamos com sono. Eu quis logo! Segui sempre nessas ditas peculiaridades, casos se repetiram, paixões me arderam e os detalhes tortos sempre se fizeram presentes no meu querer. Não é fetiche, já me preocupei que fosse e li uma dúzia de textos, li Freud e também me aprofundei nos conhecimentos de dona Regina. Não é fetiche, mas também não sei explicar. Às vezes suspeito que seja por eu ser canhoto. Canhoto é sinistro, podem pesquisar. Eu demorei muitos anos para conseguir usar um abridor de latas com eficiência porque eu sou canhoto, não dá pra mudar.

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3 comentários sobre “Canhoto

  1. Nós somos mesmo um amontoado de outras pessoas, não é? E acho que uma das coisas mais bonitas da maturidade é desenvolver a sabedoria de guardar o que foi bom sem amargurar o coração. Lindo texto, lindas peculiaridades.

    Beijo!

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