Casa VII

De-Sph2Saturno (1)

Não sei se o que sinto é alegria, ciúmes ou o quê. Sinto é estranheza. Estranheza que é até boa e que me preenche, que me rabisca um sorriso no rosto quando me apareces assim reluzente, cara lavada e fala mansa, me contando dos seus novos casos e das novidades aí noutro hemisfério. E me dá um calafrio misto de tesão quando declara saudade do nosso amor, quando por vieses cândidos rememora nossas transas. Eu provoco, você retribui, expandimos a imaginação, selamos um futuro possível de um reencontro catártico e quente dos nossos corpos. Preciso revisitar cada centímetro da tua pele morena. Preciso novamente dos teus avanços inesperados, dos teus sussurros, dos teus mistérios e de toda a reciprocidade que nos envolve: sintonia. Que os astros e todas as deidades nos ouçam e façam valer aquilo que nossos mapas astrais nos revelaram: seremos pra sempre, compartilhamos Saturno na casa VII.

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Pontuação

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Acertei com o acaso o dia e o jeito certo de te encontrar. Vou fingir despretensão, que é o que faço de melhor. Vou falar pouco de mim e perguntar bastante de você, que é o que faço bem. E vou notar cada um dos seus detalhes. Seus tons, suas linhas, suas curvas e suas cores. Como um aluno que aprende uma nova matéria fascinado pelas descobertas, porque o que excita é descobrir. – E assim nasce mais um encantamento, essa coisa que me move e me rebuli, mas que eu sou hesitante em chamar de amor. Não por falta de fé na perenidade do sentimento, mas porque encantamento me parece ser algo tão mais livre e condizente com o estado em que a gente ficar. O encantamento é embelezador, realça as cores do mundo e floreia onde só havia concreto. Se der, por sorte e outros princípios involuntários, esse encantamento vira amor. Amor suporta o peso do cotidiano e tem lá suas características controversas. Encantamento não, porque encantamento corre solto. Encantamento é aquele que flui. E minha reza a Oxum é para que tudo entre nós flua como as águas de um rio caudaloso. E então eu vou te cultivar e invadir até o dia que isso chegue num fim, que pode ser reticente ou fatal. O fim é quando a gente se esquece de como descobrir. Depois a gente discute que papel coube a quem, depois eu espero o tempo abrandando nossos incômodos e quem sabe há outra aproximação? Um último beijo, outra briga, asperezas e silêncios. Cada um pro seu lado, clamando à vida por um outro caso, outro encantamento, outro amor. Um novo castelo para outras expectativas.

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Lotação 440

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Delirei nas tuas possibilidades desde a primeira vez que te vi naquela manhã cinza de uma segunda-feira. Ônibus cheio, eu ofegante tentando entender como pude me atrasar, eu ansioso para chegar pontual no emprego e você ali reluzindo e desviando minha atenção, me embebedando de respostas e calmaria. Engravidei do teu olhar profundo, às vezes quase apático, que ao penetrar a minha pele fecundou os meus desejos encarnados. Ali mesmo eu te despi sem parcimônia e envolvi meu corpo em volta do teu, expandi cada poro com o vapor dos meus sussurros e explorei cada detalhe íntimo para a piração dos meus sentidos. Desembarquei.

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Feitiço

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Ah, mulher!, que infinitude é essa que há nos seus mistérios que não consigo me livrar? Um café coado na calcinha, meus pelos no seu congelador, qualquer mandiga assim, só pode ser. Porque me dá uma coisa estranha entre o peito e o estômago quando lembro dos seus contornos, quando lembro do seu hálito tão aqui assim no meu e me excita pensar nas diferentes nuances do teu gosto.

Eu não sei outra maneira de querer se não for para te viver até o fim. Até te rasgar inteira por dentro, até me fazer tão presente que sua carne vicie nas minhas mãos indecorosas, até que enfim, se renda e me ilumine com essa sua risada de carnaval. E me arde te querer, me alucina as possibilidades infinitas de te comer: pelas beiradas ou primeiro o recheio ou as bordas ou pelo avesso, ao norte e ao sul. Ao todo. Ah, mulher, teu dom é o desassossego!

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Tropicalícia

comigo
nenhum remorso
nos ombros a tranquilidade
de ter te vivido
no peito a paz
de ter te encontrado
na alma a experiência
do porto
no corpo
a memória aflorada
a pele suada
o corpo ofegante
nos pés o norte
no sorriso leveza
nos planos
outras rotas
outros sabores
e quem sabe
nosso reencontro
em outra latitude
n’outro trânsito astral
peculiar e tropical
onde a gente estreie
outro amor
ainda mais sacana
bobo e destemido
como no carnaval
ó minha flor morena
de sotaque de Tieta
e desajustes de Macabéa
que fique sempre linda
que fique sol
comigo

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Da Carne

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Madrugada, meio da semana, longe demais de sexta-feira e eu caí na besteira de colocar Fagner pra tocar. Gatilho perfeito. Saudade veio lancinante! Tomei um vinho barato para afastar o frio que chega com as tarde de outono e acordei os meus fantasmas para brincar com minhas lembranças. Queria você agora, sem me lembrar de hora nem dia, queria e quero agora, comigo aqui, quente e perto de mim, tateando minha barba com teus dedos miúdos e esquecidos de tudo que ficou do lado de fora do quarto. Queria te mandar mensagem, tocar o seu celular aí do outro do mundo, mas o juízo não me deixa te acordar por coisa tola assim. Fui sempre muito ajuizado para contigo, que merda. A música agora já é outra, da melancolia nem mais vestígios, agora sexo pulsa minhas veias e pinta de vermelho as paredes do meu quarto. Lembro-me dos teus olhos grandes e de uma profundidade que eu não quero explicar agora, mas lindos, infinitos num breu provocante me encarando de perto e me avançando. Lembro-me da tua língua ávida, ácida e hábil me percorrendo por inteiro. O teu cheiro quase palpável que inunda meu quarto escuro aperta ainda mais minha saudade, já não diferencio que música está tocando porque estou faminto, inteiro de desejos. Preciso do teu corpo para percorrer a minha boca, dos teus dentes para arroxear o meu pescoço e não quero mais reservas. Minha fome não é cretina, o meu desejo arde por entregas.

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Canhoto

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Meu desejo é torto. Livre e torto, bem como acho que deve ser. Desde quando entendi o que era desejo que percebi o que depois eu soube que se denominava peculiaridade. Gosto tanto dos dois dentes tortos da Carmem. Gosto tanto que cheguei, a certa altura de minha infância, ter também aqueles dois caninos pontiagudos exuberantes e levemente projetados para frente. Por causa deles sempre vi Carmem como felina voluptuosa, a mais distinta dentre as três irmãs. Quando desconstruí a imagem de Carmem como mulher para mim, fiquei meio carente de um defeito cativante até encontrar a cicatriz no braço direito de Laura.

Laura tinha a minha idade, muito diferente de Carmem, vinte quase trinta anos mais vivente que eu. Laura tinha a marca de catorze pontos no braço direito, diz ter se cortado com a porcelana do vaso sanitário que quebrou com ela em pé em cima dele. Lindos e hipnotizantes catorze pontos que me enfeitiçavam e atraíam-me com a intensidade de um ímã. Eu gostava de deslizar os meus dedos sobre aqueles tracinhos nos braços de Laura, que no princípio muito reclamava, mas depois se acostumou e suspeito ter até passado a gostar, mas isso nunca confessou.

Só não pude deixar de perceber e expor a ela minha percepção que depois de mim as blusas de manga longa já não eram maioria em seu guarda-roupa.  E eu achava ainda mais bonito ver Laura mais livre daquele incômodo bobo. Depois de Laura eu me encantei por uma gagueira. Não era nada grave, juro. Era um charme algumas palavras travarem na boca, e eu encontrava ali um intervalo perfeito para um beijo, então a boca me sorria de volta e a palavra antes travada saía agora rodopiante pelo ar em perfeita dicção. Nada me enternecia tanto quanto aquelas palavras ditas com esforço, mas que soavam com leveza e reverberavam em minha carne me despertando emoção.

No inverno eu perdi horas incontáveis com algumas pintas. Muitas pintas. A maioria se concentrava nas costas, em uma noite contabilizei cento e vinte e seis. Lindas, variadas, castanhas pintas que me deixavam absorto naquele corpo alvo. Comecei a nomear aquelas belezuras, algumas eram gêmeas, e tinha também as três marias saindo do ombro e subindo para o pescoço, área onde eu me dedicava por mais tempo e várias vezes me excedi e deixei marcas sobre elas. Ali o gosto era diferente, ali eu não entendia o que me dizia o calendário e nem o relógio. Desejei fazer morada entre as três marias e o cruzeiro do sul. Naquela região tudo era constelação. Mesmo o inverno nos exigindo roupas brutas, eu insistia em desnudá-la para mais uma vez percorrer os meus dedos numa leitura em braile sobre aquelas miúdas. Eu as amava!

No verão seguinte eu avistei olhos que me levantaram suspeita de portar algum tique. Piscadas em excesso, como quando estamos com sono. Eu quis logo! Segui sempre nessas ditas peculiaridades, casos se repetiram, paixões me arderam e os detalhes tortos sempre se fizeram presentes no meu querer. Não é fetiche, já me preocupei que fosse e li uma dúzia de textos, li Freud e também me aprofundei nos conhecimentos de dona Regina. Não é fetiche, mas também não sei explicar. Às vezes suspeito que seja por eu ser canhoto. Canhoto é sinistro, podem pesquisar. Eu demorei muitos anos para conseguir usar um abridor de latas com eficiência porque eu sou canhoto, não dá pra mudar.

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