Subtrações

Eu já perdi pessoas de todas as formas possíveis. Ou pelo menos pensei que sim, mas a vida sempre se encarrega de nos mostrar que pouco ou nada sabemos dela. Perdi de novo, mas agora foi diferente. Perda sem despedida, sem dor e pasmem: perda sem distância. Está perto, mas não sei como está. Está perto, mas não sei mais como pensa, não entendo o que fala e não acompanho mais seus passos. É um jeito estranho de perder, mais incômodo que dolorido, e por ser tão incômodo, vezenquando faz crescer uma amargura no pensamento e aperta o peito.

Tudo bem que tudo muda, incluem-se aí as pessoas, mas qual é a linha que separa a mudança da descaracterização? Ela é tênue e nos exige coragem, só enxerga essa linha quem se dispõe a ver com crueza e justiça os seus afetos. É caro não deixar que a proximidade nos cegue. Eu escolhi enxergar. E a partir daí eu deixei de achar interessante o que via, deixei de admirar suas formas, seus sons e seus tons. Fui estranhando tudo. Desconhecendo cada dia mais até que, por fim, admiti: eu perdi.

Estamos nós agora separados por anos-luz de distância e talvez algumas interpretações tortas e mal-entendidos também. Eu sinalizei tantas vezes que as coisas estavam tomando um rumo obscuro e mesmo assim o risco foi assumido. Vislumbre mata amizade, obstinação ceifa autenticidade. E agora seus muros não permitem nem uma conversa íntima. E agora seus muros te afasta não só de gente, mas também do seu Eu mais reluzente. Cobranças não cabem aqui, tampouco quero dizer-lhe como pode ou deve agir, mas a saudade a gente não racionaliza, essa a gente não engana e, poxa, meu peito está cheio de saudade!

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