Pontuação

ciclo_vida_folha

Acertei com o acaso o dia e o jeito certo de te encontrar. Vou fingir despretensão, que é o que faço de melhor. Vou falar pouco de mim e perguntar bastante de você, que é o que faço bem. E vou notar cada um dos seus detalhes. Seus tons, suas linhas, suas curvas e suas cores. Como um aluno que aprende uma nova matéria fascinado pelas descobertas, porque o que excita é descobrir. – E assim nasce mais um encantamento, essa coisa que me move e me rebuli, mas que eu sou hesitante em chamar de amor. Não por falta de fé na perenidade do sentimento, mas porque encantamento me parece ser algo tão mais livre e condizente com o estado em que a gente ficar. O encantamento é embelezador, realça as cores do mundo e floreia onde só havia concreto. Se der, por sorte e outros princípios involuntários, esse encantamento vira amor. Amor suporta o peso do cotidiano e tem lá suas características controversas. Encantamento não, porque encantamento corre solto. Encantamento é aquele que flui. E minha reza a Oxum é para que tudo entre nós flua como as águas de um rio caudaloso. E então eu vou te cultivar e invadir até o dia que isso chegue num fim, que pode ser reticente ou fatal. O fim é quando a gente se esquece de como descobrir. Depois a gente discute que papel coube a quem, depois eu espero o tempo abrandando nossos incômodos e quem sabe há outra aproximação? Um último beijo, outra briga, asperezas e silêncios. Cada um pro seu lado, clamando à vida por um outro caso, outro encantamento, outro amor. Um novo castelo para outras expectativas.

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Marina

_Sea_flavour__by_Nonnetta

Quando veio a Lua mais iluminada do frio outono, sua maré atingia-me com força: verde mar em Lua cheia. E quando já não esperava mais que suas águas me encharcassem, vieste em ondas certeiras arrebatando-me outra vez, me adoçando com seu canto de vento Sul e iluminando os meus olhos cor de infinito: sorri. Suas ondas confundem meu equilíbrio e sinto as suas águas borbulharem em mim, agitadas ainda mais pela ansiedade de querer que dessa vez se demore. As águas parecem querer expandir-se, escorrer por aí seguindo o caminho natural das águas naturais, acompanho estes movimentos vislumbrando rotas futuras de passos em comum. E ainda que eu tente firmar meus pés e parecer sereno, é de areia o assoalho marinho, move-se como o vai-e-vem das suas águas marinhas, torna-me vulnerável e pequeno diante da imensidão do seu verde-mar: entorno-me. E por ser de sal as suas águas, quanto mais de ti eu me sacio, mais de ti eu sinto sede.

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De Oyá

Samba_by_sedats

Acho bonito tudo que é vermelho em você. Sua cor me dá sede, você de vermelho me dá fome, dá vontade de ser brega, de fazer declaração, de ligar pra rádio e pedir uma da Alcione em seu nome. Dá vontade de fazer poesia chula só para te levar para cama.

Gosto de você e do jeito autóctone autêntico que se verte em sensualidade sambando com as duas mãos na cintura e sorrindo aberto como quem sabe de si, como quem bem se esclareceu e não mais se perde.  E eu me perco. Quero me perder.

Gosto da liberdade em você e dos olhos destemidos que enfeitiçam. Arrisquei te ler na primeira vez que te vi: é mais de mudanças que de permanências. E ainda assim não me arredo, te gosto sem medo, não cabe insegurança. Me estranhei.

E quero mais que só matar a sede, bote fé. Quero estudar seu mapa astral como se entendesse alguma coisa de astrologia, quero abrir teu jogo para chegar mais perto, quebrar tuas quizilas, te revirar do jeito que eu gosto e cativar meus espaços dentro de você.

Olha, o sol em você até que tem um quê a mais de divino, até me esqueço que meus olhos são noturnos e te encaro cheia de luz. Quase devoção. Minha preta de Iansã, quando os meus olhos se demoraram em cima de você eu sabia que era feitiço a sua sedução, que era inesquecível o seu cantar.

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