Clichê de Adeus

Eu queria de novo aqui aquele encantamento de quando te conheci e enxerguei na sua íris verde toda a imensidão do mar. Não encontro. Eu não te culpo. Eu não me culpo. Não sei o que há. Sinceramente não sei. Saiba que todo esse imbróglio dói em mim também. Sem essa de querer competir quem está mais fodido no fim das contas, os fins não são doces para ninguém. “Que um dia possamos ser bons amigos!” – o discurso dos canalhas. Eu aprendi a partir e não sei insistir quando não quero mais, dispenso todo “mas” para ser fiel aos meus sentimentos. Desconforto não é coisa com a qual pretendo um dia me habituar. E daqui pra frente eu espero que saibamos abrir a porta para outros amores e que todo peso seja enterrado antes da chegada da próxima estação. Diz o ditado que desamor com amor se cura. Por “amor”, entenda-se: em todas as formas, possibilidades e configurações. Por agora, o que me cura é o meu amor próprio. Eu digo adeus como um sinônimo de liberdade.

Anúncios
Padrão

Besteira qualquer

Maior besteira que fiz foi refazer os planos. Desistir dos meus planos e destinos para essa noite. Algo me prendeu, o ar ficou pesado, o vinho não bateu legal, sei lá, mas houve alguma coisa estranha sim. Deixei para trás qualquer atividade profícua ou divertida, abri espaço pras coisinhas miúdas. Quando dei por mim estava vendo o perfil do seu novo namorado e fazendo as piores comparações possíveis. Depois fui criticando cada detalhe, principalmente o português ruim. Como você consegue? Não entendo, vou deixando crescer meus piores lados, até sinto raiva. Tenho vontade de contar pra ele que seu hálito tem gosto de Hollywood vermelho. Mas ele já sabe, claro! O que dá na gente que de repente vem essa vontade de ferir? Rememoro seus segredos como se fosse capaz de usá-los contra você, mas gosto de pensar em maneiras de te atingir, como uma vingança para a minha solidão de agora. Mesquinharia total — eu sei. Penso nos teus defeitos como forma de me livrar de qualquer remorso. Quando resolvi te deixar eu sabia dessas noites viradas. Quando resolvi te deixar eu sabia que viria a falta, o corpo pedindo sexo,  os calafrios ao lembrar dos seus lábios molhando o meu pescoço. Mas está tudo bem,  eu sei bem porque estou aqui nesse momento. Eu não queria o peso que tinha a me oferecer. Não quero mexer no vespeiro cheio obscuro que há em você. Escrevo para me descarregar, porque nunca tive a coragem de dizer tudo isso a você. Nunca quis ser cruel, a idade me trouxe complacência. Então é isso. Tenho saudades, mas também tenho motivos. A má fama, pode espalhar, dizer pelos quatro cantos e ao vento que fiz isso e aquilo, que te abortei a nossa história e coisa assim. Meu nome não carrega nobreza. Aquilo que não edifica ninguém eu aprendi a guardar para mim.

Padrão

Pontuação

ciclo_vida_folha

Acertei com o acaso o dia e o jeito certo de te encontrar. Vou fingir despretensão, que é o que faço de melhor. Vou falar pouco de mim e perguntar bastante de você, que é o que faço bem. E vou notar cada um dos seus detalhes. Seus tons, suas linhas, suas curvas e suas cores. Como um aluno que aprende uma nova matéria fascinado pelas descobertas, porque o que excita é descobrir. – E assim nasce mais um encantamento, essa coisa que me move e me rebuli, mas que eu sou hesitante em chamar de amor. Não por falta de fé na perenidade do sentimento, mas porque encantamento me parece ser algo tão mais livre e condizente com o estado em que a gente ficar. O encantamento é embelezador, realça as cores do mundo e floreia onde só havia concreto. Se der, por sorte e outros princípios involuntários, esse encantamento vira amor. Amor suporta o peso do cotidiano e tem lá suas características controversas. Encantamento não, porque encantamento corre solto. Encantamento é aquele que flui. E minha reza a Oxum é para que tudo entre nós flua como as águas de um rio caudaloso. E então eu vou te cultivar e invadir até o dia que isso chegue num fim, que pode ser reticente ou fatal. O fim é quando a gente se esquece de como descobrir. Depois a gente discute que papel coube a quem, depois eu espero o tempo abrandando nossos incômodos e quem sabe há outra aproximação? Um último beijo, outra briga, asperezas e silêncios. Cada um pro seu lado, clamando à vida por um outro caso, outro encantamento, outro amor. Um novo castelo para outras expectativas.

Padrão