Contradições contemporâneas e flamejantes

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No fim dessa tarde sufocada fui arrebatado, de novo e mais uma vez, pela angústia da limitação. Até quando vou fingir que ainda sou o que já fui um dia? Mudei calado, me destruí quieto e sem recorrer aos cantos, renasci em silêncio fugindo do assombro dos estranhos. Agora feito, vejo que não me resta mais nada senão colocar meus pés no mundo e viver o desprendimento que minh’alma pede. Mas por que diabos são tão distantes nossos sonhos da realidade? Vivemos presos a essa rotina de sorrir para semi-conhecidos que nos esbarram pelas ruas, dormir tarde e acordar cedo para trabalhar, gastar dinheiro e energia em coisas que me são poucas, me travestir de indiferença para amortecer conflitos iminentes, forjar complacência, escutar os discos antigos do Caetano sem nenhuma droga na cabeça, de que adianta? Dá fissura. Dá ânsia. E eu não tenho medo da morte. Eu tenho medo de quando saturno completar seu primeiro ciclo no meu mapa astral: e aí, o que serei? Para onde vou? O que trarei de marcas? A vida me quer homem reto de compromissos cumpridos exemplarmente. E a família me quer homem reto que concretiza as expectativas traçadas antes mesmo de eu nascer ou entender o que era mundo. E outros me querem homem sem glúten macrobiótico vegetariano e essa porra toda que são apenas mais limites, menos liberdade, menos espontaneidade. Meu corpo quer é só gozar e, quando for preciso, também curtir umas nóias e umas dores ouvindo Dalva de Oliveira ou Cazuza, The Doors para sexta-feira à noite e samba para os almoços de domingo. Meu corpo quer ser solto, mas meu contra-cheque no fim de cada mês vai nutrindo meu cordão umbilical, que cada dia fica mais firme e fibroso, mais eficiente na sua função de prender-me nessa camada de mundo morno normal. Para esquecer que eu me traio a cada ímpeto que jogo de escanteio, me enveneno em doses homeopáticas: a cerveja semanal, o riso frouxo e besta, pequenas seduções, grandes abandonos e a distância do Mar. Um dia tudo isso me mata, sei de quem já morreu e até mesmo se esqueceu de que é bonito venerar as margaridas. Indo, todos estão indo. Ou ficando, não sei, questão de perspectiva. Gerúndio sempre, como se fosse lei.

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Um comentário sobre “Contradições contemporâneas e flamejantes

  1. Diana disse:

    Parece que em alguns dia a gente acorda se pergunta a razão de andar tão apressado e qual é o alvo ou se existe algum. Já me fiz tantas perguntas e dessas nasceram mais um zilhão. Mas o contemplar de tudo que é bonito, de tudo que faz sentido ao coração, isso ainda faz florir.

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