Pelas Entranhas

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Tenho os meus limites. Todos criados e impostos a mim por mim mesmo. São os meus limites que me livram de tudo que desprezo, das coisas que me aborrecem ou que poderão um dia me aborrecer. Treinei os meus limites para antever os precipícios e assim ter a liberdade de decidir se vale a pena o tombo. Meus limites possibilitam a minha liberdade.

E foi justamente nesse exercício prazeroso de erguer os meus muros que eu aprendi a reconhecer os limites dos outros. Reconhecer os limites dos outros é também descobrir as feridas, e descobrir as feridas é ter nas mãos armas certeiras. Não que eu as use, mas é sempre bom tê-las. Respeito o limite alheio. A não ser que eu queira ser invasivo, é verdade. E, desculpem a falta de modéstia, eu sei bem ser invasivo.

Quando a gente quer ser invasivo, é pela ferida que a gente entra. Mas não se pode chegar assim de supetão chutando a ferida de ninguém, tem que chegar à maciota, entrar pés de lã fazendo carinho. Assim que se amansa uma guarda. Agora sim, comendo pelas beiradas, se começa a arrancar as casquinhas. E agora já não tem volta, você desperta cólera, se valer a pena, reverte isso em alguma forma de amor, mas se tudo for farsa, é melhor deixar ser pra sempre cólera —­ assim nascem as minhas antipatias.

Mas não se alarmem, invado por bem, não faço estardalhaço, se provoco caos é pra despertar solidez. É o poder destrutivo do caos que prepara o campo para outras edificações, embora incômodo, imprescindível é o caos. É no caos onde nasce autoconhecimento, ícone maior da individualidade do ser. O autoconhecimento é maior e mais eficaz que qualquer terapia, que qualquer destilado ou filosofia. É o princípio da intimidade que começo a estabelecer, por fim.

Na intimidade é onde faço festa, me farto e lambo os beiço. Conjuro todos os demônios só por diversão e no deboche ganho todos eles. Respeito cada medo alheio, mas me desdobro inteiro para demonstrá-los pequenos. Planto fé e confidencio levezas, falo de amor, espalho por ali os meus gostos, brinco de amenizar os meus e os outros defeitos, ornamento todos os acessos com artifícios fúteis. Meia dúzia de histórias banais pra afrouxar o riso e tá tudo pronto, serviço feito. Vou embora sem alardes.

Nem sempre funciona, nem sempre dá certo, muitas vezes nem dura, mas me satisfaço. Eu nunca sei se o que me sobra é gratidão ou abandono, mas isso não me assusta, assumo os riscos da estranheza. Às vezes me divirto, outras me apaixono, mas meu caminho sempre foi de partidas. Acredito que amar é não encontrar mais a saída.

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2 comentários sobre “Pelas Entranhas

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