Atrevida

Eu sempre quis ser sapatão. Não pelo viés sexual ou fetichista da coisa, mas sim pela emancipação político-existencial que toda sapatão sustenta naturalmente diante do mundo. Percebam que eu não estou falando que queria ser lésbica, fancha ou qualquer coisa assim, o que eu queria mesmo é ser sapatão.

Andar de havaianas, camiseta regata e bermuda jeans, sabe? Sapatão de usar tênis sem meia e camisas tipo pólo, um anel de prata no dedão.Ter aquela pochete marota pendurada na cintura, um Rayban Aviador na testa e, acima de tudo, a coleção completa dos discos da Simone. Calma, não quero estereotipar ninguém, estou falando de mim e eu queria ser sapatão.

Se eu fosse sapatão, certamente saberia tocar violão e com sorte até cantaria bem. Se eu fosse sapatão, com toda certeza do mundo que eu participaria de luaus cantando todas as músicas depressivas da Ana Carolina, iria colecionar autógrafos da Maria Gadú e me apaixonar a cada nova cantora, soprano ou contralto, que empunhasse um violão para cantar as mágoas, fosse em samba, bossa ou MPB.

Não sei o que tem acontecido com as sapatão de hoje em dia, ninguém mais chora ouvindo Angela Ro Ro, a maioria talvez nem saiba quem é a Ro Ro. As mina nem pira no solo de guitarra da Marina Lima. Somente na condição existencial de ser sapatão é possível sentir de verdade toda a angústia que é a Ro Ro cantando “Escândalo!” ou a Simone cantando “Matriz ou Filial”. Se eu pudesse, mesmo que por um dia, seria sapatão.

Sapatão de ficar na frente do palco gritando obscenidades para Isabella Taviani, sabe? Sapatão de ficar criando caso quando falassem mal da Cássia Eller, sapatão presidente do fã-clube da Zélia Duncan, sapatão indignada com o casamento da Adriana Calcanhotto. Eu seria bem essa sapatão.

Queria ser sapatão para irritar minha mãe nunca usando sutiã, para protestar com os seios de fora, para discutir Simone de Beauvoir, idolatrar Pagu e tatuar o nome de Luz Del Fuego no antebraço. Quem me dera ser sapatão para chorar assistindo Frida, me arrepiar em Paraísos Artificiais e engasgar em Como Esquecer. Ser sapatão é um posicionamento político.

Eu me preocupo com o fim das sapatão, parece que todas só querem ser lésbicas e às vezes nem isso. Estamos perdendo os valores que envolvem o ser sapatão. E eu vejo o fato de ser sapatão bem distante das questões que envolvem a homoafetividade, ser sapatão é ser intempestiva e crua, uma afirmação psico-cultural. A sapatão é um traço da cultura autóctone brasileira. Ave atrevidas!

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8 comentários sobre “Atrevida

  1. Bom dia
    Encontrei-te e vim ler-te.
    Não percebi essa coisa de ser sapão. Nome feio. Confesso que não tenho simpatia por sapos.

    Hoje existem maneiras diferentes de algumas pessoas se afirmarem e de viverem a sua sexualidade. Cada um é como é e leva onde mais gosta. Respeito a todos
    .
    Se me falam em calores que sejam com as melhores brasas que encontramos todos os dias e que nos deixam a sonhar por mais e melhor.

  2. Posicionamento político? Sei! Depois de ler os comentários tô achando que esse posicionamento é para outra coisa! Hahahah Admiro a exposição de um desejo assim, em um texto cheio de detalhes, bem escrito e convincente. Mas diferente dos outros que aí comentaram eu não faço questão de ser não, nem de ser comido por ninguém, desculpa. Hahaha

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