Rio

Escrevo freqüentemente sobre o Tempo com a pouca propriedade de quem já viveu vinte e três anos e alguns meses. Ainda que me julguem leviano, falo em Tempo porque ele me risca e me marca. Tempo é deus multi-elemental e onipresente. Magno que é, só o Tempo me permanece. Ainda que eu lute contra o imediatismo e as urgências desnecessárias, sou filho da globalização, cresci em efemeridades, um tanto resignado, tudo dura pouco e só a memória é perene.

Memória da pele, memória da língua, memória do estômago, memórias de guerra, memória olfativa do meu primeiro sexo. Tudo que é novo dura pouco enquanto novo, nunca reversível, nunca mais palpável e por isso quase angustiante. Por isso somos hoje em dia tão inquietos, viciados em tudo que dura pouco, perenemente insatisfeitos e ávidos por novidades.

Infância logo escapa de nós, casa de mãe não é pra sempre, shot de tequila vai num gole, sábado à noite corre num piscar de olhos e orgasmo é coisa de segundos, mais rápido que dor de benzetacil. Sem a tragédia do “tudo que é bom dura pouco”, mas é irrevogável o fim de tudo. Calendário tem pressa e a sede é grande, saudade eu guardo no bolso que do amanhã eu quero é prazer. A inquietude me acompanha até que algo, enfim, me permaneça.
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Fim de recesso aqui no blog numa postagem excepcional para a corrente literária “O que dura pouco para você?“. Terça-feira volto a programação normal do Palavras Oblíquas.

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4 comentários sobre “Rio

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