Coleção*

Há tanto em mim que foi esculpido com a dor e polido com o desamor que me desprovi de toda fé. Reúno todas minhas mágoas e as guardo como um salve do que a vida me ensinou. Abandoná-las seria negar o que me moldou e toda sabedoria defensiva que adquiri. Esquecer das cicatrizes que já não doem, mas ainda habitam, seria abandonar-me em vulnerabilidade irracional. E eu não me desfaço porque o meu amor por mim não foi comprado, tampouco cresceu em calmaria. Tanta lama, tanto lodo nas entranhas de mim que me afastei completamente de idealizar o que é perfeito. Meus instintos se alvoroçam para revirar do avesso o particular, para que eu encontre o inteiro, porque ninguém é só anjo e nem pretendo somente conhecê-los. Tenho gana pelos monstros aprisionados, pelos fantasmas mascarados, pelos medos que te fazem hesitar e retroceder sempre que te avanço sem previsibilidade. Minha frustração é por falhar em te resgatar das evasivas chulas e não transpor seu medo do inabitual. Eu sempre soube que esse meu vício de dissecar teus bolores me amargariam: saturamo-nos imoderadamente. Por vezes me procuro mais doce, menos ácido, mais confiante e mais flexível com as minhas confianças, nunca atrofiei minha capacidade de me transformar, mas entenda que não posso atender aos seus caprichos preterindo esse tanto que há em mim. Se a forma que me queres não é a forma que sou, evitemos falar em culpa e sejamos fluidos, sábios para enxergar o que não somos. Não sei forjar fluidez e nem tento. Meu corpo só entende o que é natural. Tudo morre o tempo todo, a cada instante, não aconteceu hoje e nem ontem, acontece desde o princípio. Há um jardim de pétalas vazias de vida, um tanto descoloridas, retentoras de tudo que queríamos ser. Estive pensando no quanto a gente se aprimora em cada colisão, e talvez tenhamos existido um para o outro não para sermos algo maior, mas para tornamo-nos maiores, hábeis para vivermos um azul que virá quando nos distrairmos. De você, não sei. Em mim carrego a certeza que a gente acaba nascendo um pouquinho em cada um.
_
O texto é uma parceria inédita com a Ana Carolina.
Até depois do carnaval!

Anúncios
Padrão

7 comentários sobre “Coleção*

  1. Não só nascemos em cada um, mas vivemos o ciclo completo: nascemos, crescemos, reproduzimos e morremos (em etapas e períodos distintos).
    E mesmo que seja doloroso, é essa sensatez nos faz valorizar as cicatrizes, os anjos, os monstros, os fantasmas e os medos.
    E nos faz amar, ainda assim, toda a vida e semente que plantamos, mesmo que sem querer ou sem saber, na vida de outrem.

  2. Tive essa conversa fim de semana passado com a última garrafa de cerveja. Ela mal ouviu-me, e isso de certo modo me fez viajar nas entrelinhas das tuas frases.
    Essas dores, que ensinam mais que os breves sorrisos, de modo algum se acumulam ou repetessem. Tolo é quem pensa isso.
    E é sempre bem assim como tu dizes.
    E a foto: linda.

  3. Marcelo Rezende disse:

    Você e suas lindas parcerias.

    Sempre tive a impressão que relacionar-se com alguém tá mais pra área de crescimento do que envolvimento. Até porque o segundo acontece antes do primeiro. E bom, se crescimento é o resultado, é nele que a gente deve focar, não? Gosto muito das colisões e dos dissabores que o texto de vocês mostra. Relação alguma é arco-íris. Aliás, é muito mais cinza. É que sorrir é o segredo, o toque de fluidez, que tem gente que tem, que tem gente que não. Diferença tem que se entender e vocês as expuseram lindamente.

    Um beijo aos dois!

  4. Amanda disse:

    Mesmo sem comentar, sempre apareço por aqui.
    Seus textos são densos, reflexivos, apaixonantes e me deixam pensativa e silenciosa.
    Desde o início sou encantada por suas palavras, e certamente as parcerias, a Diana e agora a Ana, são de uma lindeza só.

    E quanto ao texto…
    Bonito, conserve a transformação e aprendizado através de suas dores. Mas sem um tanto de pesar.

    Beijos!

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s