Manifesto Antropotrágico

Então que aos poucos eu fui deixando de lado os pesos do cotidiano, a obscuridade do antigo viés,  fui ficando mais leve e hoje até apraz mais o samba que a MPB. Mas conservo vazios. Sem os meus vazios eu não sou nada, e eu quero cair cada dia um pouco mais nesse imenso de dúvidas e nas cruezas do meu eu. Tudo bem que em tempos de pós-emocore e happy rock, falar em alma e coração anda meio mainstream demais, acho brega, banalizaram essa coisa de  não estar à superfície e ter pensamento crítico e blá blá blá. Hoje todo mundo reclama, todo mundo tem vontade de morrer e tem gente que se diz de luto porque Steve Jobs morreu, puta que pariu, popularizaram até a tristeza. Não é à toa que tenho tentado ser feliz. Síndrome de underground herdada dos anos 90, nunca consegui me livrar, fazer o quê, né?  Mas a verdade mesmo é que eu tenho um puta pavor de um dia não conseguir ficar triste.

Como a nossa dor sempre dói mais que a do outro não vai adiantar eu falar que sei o que é tristeza, mas olha, tenha certeza que é mais que acordar com uma espinha grande na testa. Portanto, no meu medo de ser integralmente feliz, fui juntando umas tristezas bem doloridas para relembrar em madrugadas de domingo ouvindo Rosa Passos e isso funciona que é uma beleza! São minhas mágoas de estimação, tão bonitinhas cheirando a mofo, alimento-as com as frustrações do dia-a-dia. Gosto de pensar que sou poeta e que tenho alma de artista. Artista precisa ser triste e saber colocar beleza nisso. Se não couber beleza, joga hipérbole que funciona! Poesia boa é uma lágrima florida.

Penso que gente feliz não faz Arte, faz artesanato. E só Deus sabe o pequeno pavor que tenho de artesanato. Aquelas donas-de-casa satisfeitas com a vida indo pro centro comunitário aprender pintura em pano de prato e decoração em vidro de maionese, enchem a casa com aquelas peças de gosto duvidoso. As mais sabichonas logo começam a ficar ainda mais à toa e ainda mais felizes para sobrar mais tempo pro artesanato, então elas dizem que desenvolveram uma técnica nova e logo organizam um workshop, ganham certificado SENAI e expõem num dia de domingo na praça do bairro. “Tá trinta reais cada pano de prato, é peça exclusiva, tá? Foi pintado a mão…”

Já ganharam algum presente de artesã? Na verdade, elas nunca dão presentes, e sim divulgam o trabalho. Na maior cara de pau do mundo te trazem aquele porta-retrato de jornal envernizado, um kit de sabonetes com cheiro de desinfetante e 3 panos de pratos pintados com “O Senhor é meu pastor e nada me faltará” com algumas borboletas em volta. Se a artesã for evangélica a situação é ainda mais grave, porque ela pinta o Smilingüido em tudo o que faz! Certamente tem, usa e acha linda uma camisola XG onde coube toda família Smilingüido. Eu tenho pavor de artesanato! Eu tenho pesadelos com o Smilingüido! Deus me livre de ser feliz!

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Um comentário sobre “Manifesto Antropotrágico

  1. Marcelo Rezende disse:

    HAHAHAHAHAHA.
    Achei genial, de verdade. Mas fiquei triste em saber que sou feliz. (?) Sou artesão na minha poesia, gosto de felicidade, sei lá. E tenho consciência, mesmo, de que as coisas mais lindas nascem de um dia triste, de um porre louco. Mas eu não bebo, eu não sou triste. Tenho meus momentos, mas sei lidar com eles.

    Um beijo em você, Darlan!

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