Porto Final

Por Darlan e Diana

Subo as escadas dominicais do forasteiro mastigando uma folha de hortelã na janela que não venta. Desenhei as unhas no pescoço do dono do casaco amarelo que anos atrás me esquentava. Sorvi do café que me ofereceram almejando salivar meus gemidos passageiros na cama alheia.

Pedalei esses dias sem calendário amarelado até o mar e lancei os fios do meu cabelo nos próprios olhos marejando meus desejos sem remetente. Frente ao mar, me inflo de maresia para descarregar a insegurança, aflição e ansiedade de uma vida de engasgos. Meu norte se dissipou em todas as direções quando percebi que não agia por buscas ou sentidos, mas agora por instinto ou diversão, qualquer coisa assim que me afastasse de uma racionalidade sombria e me fizesse gozar em deleite animalesco.

Foram tantas as tardes que não mais as contabilizei, apenas pedalava, corria, subia as escadas, meia dúzia de palavras, poucos beijos, umas duas ou três trepadas, sorriso estampado, fim de domingo. De nada me valem as respostas se não são elas que movem meu mundo. E pra que perguntar demais quando a dúvida é só tormento sem previsão de porto?

Ainda escrevo cartas, amadureço as unhas no bolso procurando um balançar de pernas na rede que não dorme mais na varanda. Já não subo as escadas aos domingos, forasteiros às vezes querem mais que posses vespertinas e isso fudeu com todo o esquema das catarses dominicais. Troquei as sapatilhas, escrevi alguns laços nas roupas, perfumei as curvas do sorriso que não oferto a quem passa. Contorci a pele do sussurro até abafar no travesseiro que esfria enquanto todos trocam passos sem mim.

Hoje me faltam horas, mas na minha rosa-dos-ventos enxergo todos os pontos cardeais com os pés bem fincados no chão. A maresia ainda pode me tocar, mas não me infla. Cansou-se de mim ou estou cheia demais. Se aos domingos rejeitei, dia-a-dia, agora, tenho comigo bússola, cais, afago, companhia e o que mais meu desejo desejar.

Correm os dias no calendário gregoriano e o meu resgate há de vir numa noite qualquer me assaltando num beijo que ensaio nesses outros lábios. Beijo de infância que me libertará dos sonhos e da saudade sem prazo. Talvez margaridas floresçam no asfalto em milagre instantâneo e risos e lágrimas se unam em comovente e recôndita fragilidade. Na manhã seguinte a certeza é que tudo será diferente: jardim ou caos, ponto final.

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5 comentários sobre “Porto Final

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