Banho-Maria

Sinto incômodo no teu modo de me querer. Esse querer sem me assumir, sem realizar, sem cultivo algum. Justificativas se amontoam nesse cenário superficial de serenidade e lirismo. Nunca foi nada disso. Já que optaste pela aparência mais bela por não suportar a desordem do que é real, que assim seja. Estamos cada vez mais à superfície daquilo que realmente somos, evitando o confronto a fim de esquivarmo-nos dos arranhões do embate. Antevejo o que pode ser pior. Já não me comove seu cínico sorriso largo ao me ver; eu não queria dessa maneira, esse desgaste paulatino. Se não aceitas a minha renúncia, vai ser quando eu me cansar que finalmente experimentará algo de mim. Não espere que seja tenro ou nobre.

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5 comentários sobre “Banho-Maria

  1. Lápis molhado não pára de escrever, não renuncia, só muda a cor ou a superfície que escreve. Então, creio que quando renunciamos alguém, algum amor, algum afeto, não paramos de escrever só mudamos as palavras. Quando se começa uma história é inevitável que se escreva mesmo que o rumo possa mudar, o autor mesmo renegando sua obra permanece assinando o livro.

  2. E talvez a intensidade não seja a mesma. UM é mais profundo, mais apaixonado, mais ama do que vive. Outro é mais livre, mais solto, sem muito amor, sem muita paixão, sem muita necessidade de viver apenas o um. Um dia, quando perder, sentirá a dor de ter deixado fugir o que lhe fazia bem e aí quererá reviver o amor do outro e talvez não mais dê certo. Alguns aprendem apenas quando se machucam, preferem a forma dolorosa.

  3. Marcelo Rezende disse:

    Mas o costume com o superficial já chegou a um nível patológico, que as pessoas ficam doentes quando se arriscam. Preferem o vício do pequeno ao desgaste, nem sempre tão desgastante, do profundo e real. É triste, mas é verdade.
    Me recuso a esse tipo de relação. Antes adorava, agora prefiro sabgar, o vermelho me cai bem.

  4. Confesso que curto um final feliz. Ao ler, tive a esperança de um. Mas aí, um dia, você descobre que o final feliz era um padrão da sua cabeça e que as vezes as coisas acontecem porque são assim mesmo.
    Um belo texto! Corajoso e mostra ter muito auto-conhecimento, o que o faz ser confortável para ler.

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