Superfície

 

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A fumaça do cigarro invadia meus pulmões a cada trago forçado que eu dava. Fumar era um ato banal, não movido pelo vício, mas sim pelo ócio. Era a necessidade de fazer algo, de ter algo nas mãos. Parecia que a conforme o cigarro se consumia em brasa as horas fluíam com menos passividade.

Sentado no chão da sala, naquela tarde de pouca luminosidade, eu fitava o telefone que estava em cima do criado-mudo como se ele fosse minha salvação daquele dia tedioso. Eu precisava de algo para que eu não me afogasse na melancolia que tomara o ambiente, fazendo-me suscetível a tudo e a todos. A melancolia não me doía, mas incomodava. Incômodo por saber que eu estava vulnerável, e minha vulnerabilidade era o que eu mais repudiava.

Paulatinamente lembranças eram resgatadas de minha mente sem minha permissão, remorsos e mágoas vinham à tona com atrocidade… repentinamente o cheiro do cigarro cedera lugar ao cheiro do antigo perfume, e tal cheiro, que eu acolhia com prazer e agonia, trazia-me mais e más lembranças: nosso amor mal vivido, nossos dias perfeitos e você ao meu alcance. A mente confundia-se em raiva, remorso, saudade e desejo… como aquilo tudo doía. Nó na garganta. Silêncio absoluto. Horas pensando…

Toca o telefone, do outro lado uma possibilidade. Mais uma vez eu saía de casa com a esperança de encontrar-te em outros braços. Gozo efêmero. Saída de emergência.

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8 comentários sobre “Superfície

  1. André Nantes disse:

    As vezes a gente faz coisas que diz que nao quer fazer, viu.. a gente se engana, e se surpreende.. lembrei de uma velhinha que foi pega roubando meias (importante dizer que ela era rica) e disse que fazia isso para se sentir viva…
    Sobre seu comentário: mudei “Não quero essa realidade” para “Essa realidade é diferente..” porque são palavras da Clarice, que passo longe do buraco mais profundo de parecer. Rsrs…
    Sobre seus textos: Você está virando um Deus. Até mais grande Criador, estou temporariamente sem net também :/
    Abraços

  2. A superfície da madeira cheirosa da janela velha do meu quarto. Essa era a visão das minhas tardes chuvosas. Talvez a sua seja o telefone. Um dia ele toca e a voz de quem você tanto espera aparece.

    “Você me ligou naquela tarde vazia e me valeu o dia”

    Beijão menino

  3. a gente enxerga no outro uma possibilidade, mas também podemos ser uma possibilidade à vista ao outro. somos meras possibilidades de um gozo roto, de uma transa esporádica que surge numa tarde tediosa e que só vai durar 30 minutos e não vai significar nada, nem pra gente, nem para os outros. ih…

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